O director adjunto para Investigação e Extensão do Centro de Estudos Africanos da Universidade Eduardo Mondlane, Carlos Fernandes, defendeu, nesta quinta-feira, 26 de Março, durante a IV Conferência de Jovens Investigadores da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP)-África, que a crise de investigação científica em Moçambique e no continente não pode ser explicada apenas pela falta de financiamento, salientando a necessidade de uma reflexão mais profunda sobre as condições para a produção de conhecimento e soberania científica.
De acordo com o investigador, o debate sobre ciência e políticas públicas deve ser “multidimensional e pluralista”, indo além da questão do financiamento. “Trata-se de uma situação complexa que exige uma reflexão multidimensional”, afirmou, acrescentando que a investigação deve ser abordada através de uma combinação de experiência empírica e análise teórica.
Carlos Fernandes enquadrou as suas observações no contexto da experiência dos centros socioambientais, destacando o papel histórico do financiamento externo na consolidação da investigação em Moçambique. O académico referiu que as instituições académicas surgiram durante períodos de forte apoio internacional, como o financiamento sueco, que permitiu a criação de espaços de autonomia científica.
O investigador observou também que, apesar dos progressos institucionais, o padrão de dependência externa persiste. “A história repete-se”, declarou, salientando que a investigação científica continua dependente do financiamento internacional, o que levanta questões sobre soberania científica e a capacidade de produção autónoma de conhecimento.
Fernandes argumentou que o problema não se limita ao subfinanciamento, mas envolve também a forma como o conhecimento é produzido e as questões de investigação são definidas. “Não se trata apenas de uma questão de financiamento, mas de algo mais profundo: a estagnação silenciosa do próprio acto de pensar”, disse, alertando para as instituições impostas pelos modelos de consultoria que moldam as agendas de investigação.
O responsável destacou também a importância de repensar a relação entre as universidades, a sociedade e o poder político, defendendo uma “ética da conversa” baseada no respeito e na abertura ao debate. “A importância de uma conversa que respeite os outros e os trate com dignidade” afirmou, sublinhando que o diálogo é uma parte essencial da construção da soberania científica.
Para Carlos Fernandes, a descolonização do conhecimento não pode limitar-se à substituição de autores ou conteúdos, mas deve incluir mudanças nas infra-estruturas institucionais e nas condições materiais da produção científica. “Universidades com financiamento insuficiente, centros de investigação dependentes e arquivos negligenciados”, observou, são factores que limitam a autonomia do conhecimento.
O debate contou também com uma intervenção do sociólogo e director do Centro de Estudos Africanos, Elísio Macamo, que salientou que a questão central não se resume apenas ao financiamento ou aos conteúdos leccionados, mas sim à qualidade do conhecimento produzido e à capacidade de formular problemas de forma independente. “A questão não é apenas saber que solução aplicar, mas sim quem definiu o problema”, disse.
Macamo introduziu a distinção entre “inteligência” e “imaginação”, argumentando que as universidades devem formar não só indivíduos capazes de aplicar conhecimento, mas também de questionar paradigmas e criar novas formas de pensar. “A inteligência permite-nos agir dentro de um paradigma, e a imaginação permite-nos questionar esse paradigma”, afirmou, sublinhando que a emancipação depende da capacidade de “gerar as nossas próprias perguntas e não apenas respostas importadas”.
Texto: Germano Ndlovo

