O Governo ruandês confirmou que tem mais de 6300 militares a combater o terrorismo no norte de Moçambique, três vezes mais face ao destacamento de 2021, reafirmando que precisa de um “quadro de financiamento sustentável” para continuar.
“O Ruanda tem reiteradamente defendido que o destacamento a longo prazo das nossas forças de segurança em operações conjuntas de combate ao terrorismo em Moçambique exige um quadro de financiamento sustentável. Tendo até agora suportado a maior parte do encargo financeiro destas operações, uma transição para um financiamento mais equitativo é uma necessidade estratégica”, afirmou a porta-voz do Governo ruandês, Yolande Makolo.
Ao reagir, através da sua conta oficial na rede social X, a notícias em órgãos internacionais sobre as negociações entre o Ruanda e os Estados Unidos da América (EUA) e a União Europeia (UE), Makolo afirmou que cabe ao Governo moçambicano tratar desse financiamento.
“O Ruanda não solicitou e não solicitará fundos adicionais do Mecanismo Europeu para a Paz, isso é uma questão para Moçambique. O destacamento do Ruanda exige financiamento sustentável e cabe ao Governo anfitrião e aos seus parceiros com grandes investimentos em Cabo Delgado providenciá-lo, como sempre foi. De resto, estamos satisfeitos por ter podido contribuir, juntamente com os nossos aliados, para derrotar os terroristas, garantir a segurança dos residentes de Cabo Delgado e permitir a concretização dos investimentos”, acrescentou.
A posição do Ruanda surge num momento em que se aproxima o fim do apoio financeiro da União Europeia (UE) à operação, previsto para Maio, ao fim de 36 meses de financiamento que totalizou 40 milhões de euros. Paralelamente, os Estados Unidos da América (EUA), que financiam o megaprojecto de gás natural liquefeito (GNL), liderado pela francesa TotalEnergies em Cabo Delgado, aplicaram sanções às Forças de Defesa do Ruanda (RDF) devido ao conflito na República Democrática do Congo.

No início de Março, o ministro dos Negócios Estrangeiros do Ruanda, Olivier Nduhungirehe, avisou que o destacamento militar ruandês que combate o terrorismo em Cabo Delgado poderia ser retirado do norte de Moçambique caso não existam garantias de “financiamento sustentável” para a operação.
Por sua vez, o Governo moçambicano manifestou “preocupação” e “choque” com o anúncio do fim do apoio da UE, garantindo que procura alternativas e que as sanções dos EUA não afectam a operação do Ruanda em Cabo Delgado. “Antes mesmo de chegar a Maio, teremos de ter uma clara evidência sobre o que é que efectivamente deverá acontecer sobre isto. Mas também, uma vez anunciado, foi um choque”, declarou o porta-voz do Executivo, Inocêncio Impissa, num briefingcom jornalistas em Maputo.
Recentemente, a Comissão Europeia para os Negócios Estrangeiros afirmou estar em “diálogo contínuo” com o Governo de Moçambique para definir eventuais apoios em termos de medidas de segurança em Cabo Delgado, esclarecendo que decisões sobre o destacamento ruandês devem ser tomadas entre os dois países africanos.
Citado pela Lusa, o responsável sublinhou que a UE reconhece a contribuição muito importante feita pelo Ruanda nos esforços para controlar o terrorismo na região, salientando que as autoridades moçambicanas também têm valorizado a presença das forças ruandesas.
O apoio da UE consiste em 20 milhões de euros previstos desde Novembro de 2024, que se somam a outro apoio idêntico de 20 milhões concedido em 2022, totalizando 36 meses de assistência. Este financiamento destinou-se, entre outros, à aquisição de equipamento pessoal e transporte aéreo estratégico.
A verba adicional complementou a medida de assistência paralela, no valor de 89 milhões de euros, às Forças Armadas moçambicanas anteriormente formadas pela Missão de Formação da UE Moçambique.
Desde Outubro de 2017, Cabo Delgado – província rica em recursos naturais, nomeadamente gás – tem sido palco de uma insurgência armada que já provocou milhares de mortos e originou uma crise humanitária com mais de um milhão de deslocados internos.
Em Abril de 2025, os ataques alastraram também à vizinha província do Niassa. Um dos episódios mais graves ocorreu na Reserva do Niassa e no Centro Ambiental de Mariri, no distrito de Mecula, onde grupos armados não estatais atacaram instalações, roubaram bens, destruíram acampamentos e uma aeronave do parque. Estes actos resultaram na morte de, pelo menos, duas pessoas, e levaram à deslocação de mais de dois mil indivíduos, dos quais 55% crianças.
