Moçambique encontra-se numa “encruzilhada crítica”, necessitando simultaneamente de aliviar as pressões fiscais, acelerar o crescimento económico e reforçar a coesão social. O alerta foi feito por Hugo Costa, Head of Financial Markets and Treasury do Banco Comercial e de Investimentos (BCI), nesta quarta-feira (15), durante uma apresentação sobre as “Perspectivas Económicas do País para 2026”.
Segundo o responsável, “estas três dimensões não são independentes entre si e terão de avançar em paralelo para garantir o desenvolvimento económico e social esperado”.
Ao traçar o retrato do País, Hugo Costa destacou que Moçambique é uma economia relativamente pequena se comparada com outros países da região, com um Produto Interno Bruto (PIB) na ordem dos 22 a 23 mil milhões de dólares, que tem enfrentado diversos choques nos últimos anos, desde a pandemia da covid-19 até à insurgência no norte, passando por eventos climáticos extremos e volatilidade nos preços energéticos, tendo referido que “estas variáveis têm exercido forte pressão sobre a despesa pública e condicionado a recuperação económica”.
Apesar dos desafios, o responsável enumerou alguns factores que favorecem o País, incluindo o crescimento económico registado ao longo das últimas décadas, os recursos naturais e o potencial transformador dos projectos de gás na bacia do Rovuma. “Cada um destes projectos representa um PIB”, sublinhou, destacando o impacto que poderão ter na economia.

Outros pontos positivos incluem a posição geoestratégica do País como corredor logístico regional, o potencial agrícola e energético, bem como um sistema bancário considerado “estável, bem capitalizado e com liquidez”, capaz de apoiar uma eventual aceleração económica. A inflação, por seu turno, “encontra-se actualmente controlada, resultado de uma política monetária interventiva por parte do banco central (BdM)”, destacou.
No entanto, Hugo Costa também apontou as fragilidades estruturais que, segundo o mesmo, continuam a travar o desenvolvimento. Entre elas, destacou o que considerou elevado nível de endividamento público e a limitada margem fiscal, a escassez de divisas, a forte dependência de fluxos externos e a reduzida diversificação da economia.
“Todos os agregados macroeconómicos do país estão assentes em dois ou três sectores ou commodities”, referiu, acrescentando que isso compromete a resiliência da economia.
A pressão sobre o emprego, resultante de uma população jovem em rápido crescimento, e a elevada informalidade também foram identificadas como desafios críticos.
No que diz respeito ao risco soberano, o responsável sublinhou que “Moçambique tem sido alvo de sucessivos downgrades por parte das agências internacionais”, com a dívida a aproximar-se de níveis considerados de incumprimento.

Segundo Hugo Costa, em 2025, a agência de notação financeira Standard & Poor’s (S&P) classificou a dívida doméstica de Moçambique como Selective Default, agravando a capacidade de financiamento do Estado e pressionando o desempenho das empresas.
Em termos de crescimento económico, ainda de acordo com Costa, os dados recentes revelam um cenário preocupante: após quatro trimestres consecutivos de contracção, Moçambique registou um crescimento de 4,67% no último trimestre de 2025, insuficiente para evitar uma contracção anual de 0,5%.
“Este desempenho contrasta com o crescimento médio histórico de cerca de 8% a 9% registado em períodos anteriores, tendo o País registado, nos últimos anos, uma média de apenas 3%.”
O responsável acrescentou que as perspectivas para 2026 “permanecem pouco favoráveis”, justificando a afirmação com projecções que apontam para um crescimento inferior a 3%, podendo inclusive ficar abaixo dos 2%, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), ou situar‑se em torno de 0,5%, de acordo com revisões mais recentes do Banco Mundial. Um cenário que, segundo o responsável de Mercados Financeiros e Tesouraria do BCI, poderá resultar em dois anos consecutivos de estagnação económica.
Perante este quadro, Hugo Costa defendeu que a sustentabilidade da dívida pública, a implementação de reformas fiscais e a concretização dos grandes projectos estruturantes serão determinantes para o futuro económico de Moçambique, num contexto que exige igualmente estabilidade social e segurança.
Texto: Alfredo Ubisse
