O Citigroup — empresa americana de serviços financeiros com sede na cidade de Nova Iorque — considerou que Moçambique, Senegal e Maláui podem entrar em ‘default’ das suas dívidas nos próximos dois anos, sublinhando que, actualmente, os governos africanos sofrem com o impacto do choque do preço do petróleo iraniano nas suas finanças e economias.
Citado pela Reuters, David Cowan, economista-chefe do Citi para África, descreveu que, desde 2020, o continente africano vivenciou quatro incumprimentos soberanos em processos de reestruturação de dívida no âmbito da iniciativa do G20 (Gana, Zâmbia, Etiópia e Chade) com estes países a sucumbirem a uma combinação de pesados encargos de dívida e má gestão económica, agravada por choques externos, desde a pandemia de covid-19 até à invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia.
“África ainda não está totalmente fora de perigo em termos de incumprimento da dívida. O Senegal tenta livrar-se de uma crise de dívida oculta descoberta no final de 2024, mas continua numa situação bastante complicada, o que significa que o País pode entrar em incumprimento em 2027, após ter conseguido manter-se firme neste ano”, afirmou.
Na sua intervenção, David Cowan avançou que Maláui e Moçambique também podem entrar em incumprimento, destacando uma forte desvalorização das suas respectivas moedas, o que pode levar os seus níveis de dívida e os pagamentos devidos em empréstimos em moeda forte a um patamar insustentável.
Segundo o responsável, os incumprimentos das duas nações da África Austral poderiam ser resolvidos rapidamente, uma vez que o Maláui não possui títulos internacionais, enquanto Moçambique tem apenas um título em moeda forte em circulação.
“De um modo geral, África está a sair-se melhor em termos de custos de empréstimos internacionais na crise relacionada com a guerra no Médio Oriente, em comparação com crises anteriores”, concluiu Cowan.
Recentemente, o Banco Mundial voltou a lançar um aviso claro sobre a trajectória da dívida pública de Moçambique, classificando-a como insustentável e em situação de incumprimento, num contexto em que as pressões fiscais continuam por resolver e os sinais de fragilidade se acumulam.
De acordo com a mais recente Actualização Económica de Moçambique, divulgada esta terça-feira, a dívida pública, incluindo a garantida pelo Estado, mantém-se em níveis elevados, tendo atingido 91,4% do Produto Interno Bruto (PIB) no final de 2024. Ainda assim, o dado mais preocupante reside na avaliação qualitativa: tanto o Banco Mundial como o Fundo Monetário Internacional consideram que o país se encontra em “distress”, ou seja, já em incumprimento efectivo das suas obrigações.
O relatório indica que os atrasados no serviço da dívida representavam 1,3% do PIB até Dezembro de 2025, evidenciando dificuldades concretas de pagamento. Esta situação marca um agravamento face à análise anterior, publicada em meados de 2024, reflectindo o impacto de pressões fiscais persistentes e de uma gestão que não conseguiu conter o crescimento do endividamento.
Em paralelo, o Banco de Moçambique tem reiterado preocupações semelhantes. Na mais recente reunião do seu comité de política monetária, o banco central alertou que o endividamento público interno continua a agravar-se, condicionando o funcionamento do mercado financeiro e contribuindo para a rigidez das taxas de juro no sistema interbancário.
A acumulação de atrasados junto de fornecedores e credores, aliada às dificuldades na emissão de nova dívida, reflecte restrições de liquidez cada vez mais evidentes, num cenário em que a margem de manobra fiscal permanece limitada.

