Jogo Online: Novo Sector em Expansão a Partir do Ecrã do Telemóvel • Diário Económico

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Raspadinhas digitais, apostas desportivas e novos jogos instantâneos: o telemóvel tornou-se palco de ganhos rápidos e perdas inesperadas. Moçambique entrou num mercado emergente, mas os dados sobre operadores, apostadores e dinheiro envolvido ainda estão fragmentados. As casas de jogos e apostas celebram a expansão, a receita aumenta nos cofres do Estado, no entanto falta entender os fluxos de dinheiro e organizar a fiscalização. O crescimento digital é real, só que a casa ainda precisa de ser arrumada.

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Gildo Fernando, 41 anos, começou a apostar durante a pandemia de covid-19. “Era só futebol, por diversão”, recorda à E&M. Hoje, abre três sites de apostas diferentes, todas as manhãs, antes de sair de casa. Quando faz contas, diz que está em terreno positivo e não pensa em sair. Nem mesmo sabendo que, como dita a gíria, “a casa ganha sempre”, ou seja, o azar pode bater à porta e o saldo ficar negativo. “Nunca consegui parar no lucro”, admite, resignado a continuar dependente do que lhe calhar no universo dos jogos na Internet.

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A rotina de Gildo não é uma excepção. Por todo o País, o gesto repete-se: desliza-se o dedo no ecrã, consultam-se as odds (palavra inglesa para “probabilidades”), apostam-se pequenos valores e esperam-se breves segundos para saber o resultado. Muitos influenciadores digitais são pagos para promover casas de apostas nas redes sociais. Gildo e muitos outros estão expostos às mensagens publicitárias.

Desde 1 de Junho de 2025, os jogos sociais e online passaram a suportar uma carga de 20% sobre a receita bruta de jogo além de (do lado do utilizador) 10% de IRPS e 5% de Imposto do Selo sobre os prémios. Antes, a incidência total para os jogos online era de 10%

O jogo online instalou-se como um hábito quotidiano para muitas pessoas. Deixou de ser apenas um entretenimento para passar a ser visto como uma possibilidade de rendimento rápido, apesar de ser um jogo incerto. A penetração é especialmente visível entre os jovens dos grandes centros urbanos. E esta transformação não foi gradual. Foi rápida, quase abrupta.

Há poucos anos, o jogo em Moçambique era dominado pela ocasional lotaria, raspadinha ou aposta presencial. Hoje, as apostas cabem no bolso. A transição de formatos esporádicos para a lógica contínua das apostas móveis alterou profundamente a frequência, a intensidade e até o perfil do jogador. Se antes se jogava quando havia oportunidade ou dinheiro disponível, agora joga-se a toda a hora, em qualquer lugar.

Jogo massificado

Do lado dos operadores, a leitura é semelhante. Vários representantes de plataformas internacionais ouvidos pela E&M descrevem Moçambique como um mercado emergente e altamente reactivo ao jogo digital. E os sinais dessa expansão são visíveis: promoções constantes, integração directa com carteiras móveis, campanhas agressivas nas redes sociais e mensagens que prometem ganhos rápidos. Um dos sinais mais evidentes está nas ruas. As cidades estão tomadas por painéis publicitários de marcas de apostas. A presença é constante, repetitiva e praticamente impossível de ignorar.

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As apostas desportivas, durante anos dominantes no sector, começam a perder centralidade

Há 34 operadores licenciados identificados nas plataformas públicas do regulador (Inspecção Geral de Jogos, IGJ), embora apenas 20 estejam activos. No mercado, porém, fala-se já em quase 50 casas de apostas. É difícil saber ao certo. Qualquer dos números parece elevado para a dimensão de um mercado que, segundo vários operadores, começa a dar sinais de saturação.

A falta de informação sistematizada é uma das características. Existem dados, mas continuam incompletos, sobretudo quando comparados com o nível de detalhe disponibilizado por reguladores de mercados maduros, como Portugal ou África do Sul. Não há estatísticas públicas consolidadas sobre o número de apostadores, volume mensal ou quota real de cada segmento.

Tudo em moeda electrónica

A expansão do jogo online assenta hoje numa conjugação poderosa entre conectividade, mobilidade e dinheiro digital. É um cenário que se tem repetido noutros mercados africanos e que, em Moçambique, encontra terreno fértil. O País conta com cerca de 17,6 milhões de subscrições móveis activas, segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE), para uma população de aproximadamente 33 milhões de habitantes. Estima-se que haja entre 6 a 7 milhões de pessoas com acesso à Internet, maioritariamente ligados através do telemóvel.

O sector continua marcado por dados fragmentados, pouca informação pública consolidada e dúvidas sobre a capacidade efectiva de fiscalização. O mercado já ganhou escala, mas a regulação ainda tenta acompanhar esse ritmo

A esta realidade soma-se uma dimensão financeira decisiva. De acordo com o Banco de Moçambique e entidades do sector, existem cerca de 23 milhões de subscritores de moeda electrónica — entre M-Pesa, E-Mola e Mkesh —, o que facilita o acesso directo às plataformas de apostas. Em termos práticos, milhões de moçambicanos estão hoje em condições de depositar, apostar e levantar dinheiro directamente pelo telefone.

O que ganha o Estado?

Macário Gusse, inspector-geral adjunto da IGJ, esclarece que existem duas leis que enquadram o sector, o que dificulta a obtenção de dados de mercado: uma lei é relativa aos “jogos de fortuna ou azar” e outra sobre jogos sociais. No caso dos casinos, o regulador detém a competência directa para a liquidação do imposto e verifica-se uma evolução significativa da arrecadação. Já no segmento dos jogos sociais, a situação é diferente. A cobrança do imposto é da competência da Autoridade Tributária. Ainda assim, tem havido articulação institucional no sentido de reforçar o controlo nesta área.

Segundo a IGJ, em 2024, a arrecadação de impostos nos jogos sociais atingiu cerca de 1,2 mil milhões de meticais, tendo aumentado para aproximadamente 1,8 mil milhões em 2025. “Em 2026, a tendência mantém-se claramente ascendente”.

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Em 2025, o regime fiscal dos jogos sociais e online em Moçambique tornou-se substancialmente mais pesado. Entrou em vigor uma tributação sobre a receita bruta de jogo (Gross Gaming Revenue, GGR) de 20% (12% para a IGJ e 8% para o Fundo da Receita do Jogo, Furjogo). Antes, havia o imposto que era de 10% sobre a receita bruta deduzida dos prémios. A isso acrescem, do lado do apostador, 10% de IRPS e 5% de Imposto do Selo sobre os prémios recebidos. A medida foi anunciada como parte de um sistema de fiscalização reforçada.

O Orçamento de 2025 previa 666 milhões de meticais de arrecadação total no sector dos jogos, físicos e online, mas o valor chegou apenas a metade. Ainda assim, para 2026, o Estado prevê chegar aos 2 mil milhões de meticais.

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Em que é que se aposta em Moçambique?

O mercado global do jogo online encontra-se em forte expansão, e os chamados “crash games”. Jogos de apostas online, nos quais  um valor numérico aumenta continuamente (por exemplo, simulando um voo de avião). O jogador decide quando parar para receber o ganho. Se o aumento termina de forma inesperada antes disso, perde a aposta. São rápidos e arriscados.

O sucesso destes formatos explica-se pela rapidez, pela simplicidade e, sobretudo, pela descarga de adrenalina. Vários relatórios internacionais do sector identificam-nos como um dos segmentos de crescimento mais acelerado, representando uma parcela importante das sessões de casino móvel.

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Em Moçambique, onde algumas projecções apontam para cerca de 2,5 milhões de utilizadores em 2025, esta dinâmica parece ainda mais acentuada. “Jogos como o Aviator são um sucesso estrondoso de receitas porque oferecem ao apostador uma sensação de ganho imediato muito mais forte do que a aposta desportiva convencional, onde o tempo de espera é maior”, explicam vários operadores ouvidos pela E&M.

Por contraste, as apostas desportivas — durante anos dominantes no sector — começam a perder centralidade. Exigem mais análise, mais acompanhamento e alguma literacia de jogo. O que emerge agora é um modelo de consumo mais rápido, mais frequente e mais acessível, mas também potencialmente mais impulsivo.

É preciso arrumar a casa

Mesmo com dados fragmentados, verifica-se que o volume financeiro movimentado pelo sector é expressivo. Os operadores indicam que, mesmo entre empresas de menor dimensão, as receitas anuais podem atingir valores de muitos milhões de meticais. O montante total, porém, permanece desconhecido. Esse padrão sugere que o jogo online já é um actor relevante na economia nacional e que poderia ter um impacto social mais estruturado se fosse devidamente canalizado e acompanhado.

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Um operador ouvido pela E&M, sob anonimato, refere que as casas de apostas descontam hoje 20% das receitas para efeitos fiscais, mas gostariam de ter mais esclarecimentos sobre o destino das verbas arrecadadas. Segundo a mesma fonte, recentemente, o ministro da Juventude e Desportos reuniu-se com operadores e com o regulador para perceber melhor o mecanismo e avaliar alternativas.

A intenção do Executivo será estudar a possibilidade de a arrecadação deixar de estar apenas sob tutela do Ministério das Finanças e passar a ser acompanhada por outro sector do Estado, como Cultura e Turismo, numa lógica semelhante à de outras geografias, aproximando as receitas do jogo de políticas públicas mais directamente relacionadas com o sector.O mercado cresce rapidamente, mas a forma como os impostos são recolhidos e enquadrados ainda parece desajustada, comentam vários operadores. O fenómeno mostra que, além do crescimento, a verdadeira prova de maturidade estará na capacidade de o Estado arrumar a casa, fiscal e institucionalmente.

Fragilidades persistentes na regulação

Apesar do enquadramento legal existente, a aplicação prática da fiscalização continua a apresentar lacunas relevantes. Existem normas e regras publicadas pela IGJ, mas a monitorização da publicidade, dos limites de apostas e da conformidade fiscal permanece desigual. A experiência de outros mercados emergentes mostra que, quando o crescimento do sector supera a capacidade institucional de regulação, aumentam os riscos de práticas pouco transparentes, opacidade nos fluxos financeiros e insuficiente protecção do consumidor.

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O licenciamento formal existe e define obrigações fiscais e operacionais, mas a entrada de novos operadores e a rápida expansão digital criam um ecossistema complexo, em que o controlo não acompanha a velocidade do mercado.

Em comparação, países como Angola ou África do Sul, com estruturas regulatórias mais consolidadas, apresentam maior previsibilidade e supervisão efectiva, reforçando a necessidade de Moçambique alinhar o crescimento do sector com a sua capacidade fiscalizadora.

A intenção do Executivo será estudar a possibilidade de a arrecadação deixar de estar apenas sob tutela do Ministério das Finanças e passar a ser acompanhada por outro sector do Estado, como Cultura e Turismo, numa lógica semelhante à de outras geografias

O futuro promete melhor organização

Reconhecendo as dificuldades persistentes, a IGJ promete um novo “sistema inteligente” de controlo do sector, que possibilitará saber, em tempo real, quantas pessoas estão a jogar em cada jogo, quem está a jogar, o valor agregado das apostas e dos prémios, e se estão todos a obedecer aos limites legais para prevenir branqueamento de capitais (actualmente não é possível detectá-lo). “É um sistema que estamos a introduzir”, explicou o inspector-geral adjunto de Jogos, Macário Gusse.

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Trata-se de um sistema a ser utilizado exclusivamente pela entidade reguladora, mas que ainda não está operacional, decorrendo a fase de integração das empresas e sem previsões quanto à data de arranque. Será preciso registar empresas, jogadores e jogos.

No final, nenhum detalhe deve estar fora do sistema. Trata-se de um sistema oferecido pela empresa tecnológica iSolution e que já é utilizado no Maláui e no Quénia.

TextoCelso ChambissoFotografiaD.R

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