Com uma juventude em rápida expansão, conectividade crescente e um mercado que poderá ultrapassar 3,7 mil milhões de dólares até 2029, África emerge como uma das novas fronteiras no entretenimento digital. Poderá ser o próximo grande palco do sector global de jogos?
O sector global de jogos transformou-se numa das mais poderosas forças da economia criativa contemporânea. O que começou como um nicho tecnológico evoluiu para um gigantesco ecossistema de entretenimento digital, com impacto na cultura, nos negócios e na inovação tecnológica. Em 2024, as receitas globais do sector deverão ultrapassar 187,7 mil milhões de dólares, sustentadas por uma comunidade estimada em 3,42 mil milhões de jogadores em todo o mundo, segundo dados da consultora KPMG.
A expansão do sector tem sido impulsionada sobretudo pela mobilidade e pela democratização do acesso digital. Os jogos online para dispositivos móveis assumem, hoje, uma posição dominante, gerando 92,2 mil milhões de dólares, o equivalente a cerca de 49% de toda a receita global do sector. A utilização massiva dos smartphones, particularmente nos mercados emergentes, transformou o telemóvel no principal dispositivo de acesso ao universo do gaming.
O crescimento de África coloca o continente entre os mercados digitais mais dinâmicos do mundo. A principal explicação encontra-se na combinação de três factores estruturais: demografia, conectividade e mobilidade tecnológica
As consolas continuam, contudo, a representar um segmento robusto, com receitas de 51,9 mil milhões de dólares, apoiadas por uma base fiel de jogadores atraídos por títulos premium e experiências imersivas de elevada qualidade. Já o segmento de jogos para PC mantém-se relevante, com cerca de 43,2 mil milhões de dólares, beneficiando da versatilidade das plataformas digitais e da forte presença de comunidades online.
A evolução tecnológica reforça ainda mais este crescimento. Tecnologias como realidade virtual, cloud gaminge experiências multijogador massivas estão a redefinir a forma como os jogos são concebidos, distribuídos e consumidos. Paralelamente, os eSports consolidaram-se como um sector próprio, com milhões de espectadores que acompanham competições internacionais, gerando receitas através de publicidade, patrocínios e venda de bilhetes.
Estamos numa era em que os jogos deixaram de ser apenas entretenimento e se transformaram num sector estratégico da economia digital global.

O mapa do poder no mercado global
Apesar da dimensão global da actividade, a distribuição das receitas permanece concentrada em alguns pólos dominantes. Em 2024, a região Ásia-Pacífico liderou o mercado mundial, com receitas de 85,9 mil milhões de dólares, impulsionadas sobretudo pela China, que contribui com cerca de 45 mil milhões de dólares.
A América do Norte surge em segundo lugar, com 50,2 mil milhões de dólares, dos quais 47 mil milhões são gerados pelos Estados Unidos, mantendo o país como um dos maiores centros de consumo e desenvolvimento de jogos onlinedo mundo. A região representa 27% de toda a receita global do sector.
Segue-se a Europa, com 34,8 mil milhões de dólares, enquanto a América Latina gera cerca de 9,1 mil milhões. Médio Oriente e África, embora ainda representem apenas 7,7 mil milhões de dólares, começam a chamar a atenção da actividade global devido ao ritmo acelerado de crescimento. É precisamente nesta dinâmica que surge uma das narrativas mais relevantes do sector: o deslocamento gradual do crescimento para os mercados emergentes.

Enquanto regiões maduras, como a América do Norte, registam um crescimento modesto, cerca de 0,6% ao ano, devido ao abrandamento do mercado de consolas, regiões emergentes apresentam taxas significativamente superiores. A América Latina cresce cerca de 6,2%, enquanto Médio Oriente e África registam uma taxa de crescimento de cerca de 8,9%, impulsionada sobretudo pela expansão do mobile gaming.
África entra no radar da actividade global
Entre todos os mercados emergentes, África destaca-se como uma das fronteiras mais promissoras do jogo mundial. De acordo com o estudo Africa Gaming Market – Size & Share Analysis (2024-2029), da Mordor Intelligence, o mercado africano deverá crescer de 2,14 mil milhões de dólares em 2024 para 3,72 mil milhões de dólares em 2029, registando uma taxa média anual de crescimento de 11,62%. Este crescimento coloca o continente entre os mercados digitais mais dinâmicos do mundo. A principal explicação encontra-se na combinação de três factores estruturais: demografia, conectividade e mobilidade tecnológica.
África possui hoje uma das populações mais jovens do planeta. Segundo projecções das Nações Unidas citadas pela Mordor Intelligence, o número de jovens com menos de 24 anos deverá aumentar cerca de 50% até 2050. Esta geração digitalmente conectada representa um público natural para o consumo de jogos digitais.

Paralelamente, a expansão da conectividade móvel está a transformar rapidamente o panorama digital africano. Desde 2019, cerca de 272 milhões de pessoas na África Subsaariana passaram a utilizar telemóveis e este número deverá atingir 475 milhões este ano, segundo dados da GSMA. Uma parte significativa das ligações já ocorre em redes 4G e 5G, alargando as possibilidades de acesso a jogos online e serviços digitais.
A penetração da Internet acompanha esta tendência. Cerca de 13% dos utilizadores de todo o mundo encontram-se actualmente em África, comparando com 9,1% em 2017.
Mobile gaming, a porta de entrada
Tal como acontece em muitas economias emergentes, o telemóvel tornou-se no principal motor do sector de jogos em África. Estima-se que cerca de 90% do mercado africano de jogos online seja dominado pelos jogos móveis, uma realidade explicada pela acessibilidade e pela crescente disponibilidade de smartphonesde baixo custo.
O avanço tecnológico contribui para reforçar esta tendência. O desenvolvimento de chips especializados para jogos móveis (como a série MediaTek Helio G) e a expansão de gaming smartphones em mercados africanos estão a melhorar significativamente o desempenho gráfico e a experiência dos utilizadores. Ao mesmo tempo, o consumo de dados móveis está a crescer a um ritmo extraordinário. Segundo estimativas citadas pela Mordor Intelligence e pela Ericsson, o tráfego médio mensal de dados por smartphone na África Subsaariana deverá atingir cerca de 10,99 gigabytes até 2027, comparando com 0,85 gigabytes em 2020. Este aumento de mais de dez vezes cria um ambiente cada vez mais favorável para jogos online, multijogador e serviços por subscrição.
África afirma-se como produtor de conteúdos digitais. Estúdios locais desenvolvem jogos com narrativas africanas para alcançar públicos internacionais
Os pólos africanos dos jogos online
Embora o mercado africano ainda esteja em fase de consolidação, alguns países já se destacam como centros regionais de desenvolvimento e consumo de jogos. De acordo com o relatório 2025 da KPMG, a África do Sul mantém a posição de maior mercado do continente. O país gerou cerca de 266 milhões de dólares em receitas, em 2023, valor que deverá crescer para 333 milhões de dólares este ano, sustentado por uma comunidade estimada de 26 milhões de jogadores.
O Egipto representa outro pólo relevante, com mais de 35 milhões de jogadores, assim como a Nigéria, frequentemente apontada como o mercado de crescimento mais rápido do continente. Na África Oriental, o Quénia emerge como um mercado promissor.
Para além do crescimento do consumo, África começa também a afirmar-se como produtor de conteúdos digitais próprios. Estúdios locais estão a desenvolver jogos que incorporam narrativas africanas e que procuram alcançar públicos internacionais. Empresas como Maliyo Games, Kiro’o Games e Nyamakop fazem parte de uma nova geração de criadores que exploram a mitologia africana e histórias locais, criando produtos que combinam identidade cultural com inovação tecnológica. Ao mesmo tempo, eventos como a Comic Con Africa ou o African Esports Championship demonstram que o continente começa a desenvolver um verdadeiro ecossistema de jogos, envolvendo criadores, jogadores, investidores e comunidades digitais.

Contudo, persistem desafios significativos. A falta de financiamento para estúdios independentes, as dificuldades de acesso a mercados internacionais e problemas como pirataria digital e fraudes em transacções online continuam a limitar o ritmo de crescimento do sector.
O futuro digital do entretenimento africano
Apesar dos desafios, os sinais apontam para um futuro promissor. A pandemia da covid-19 acelerou significativamente o consumo de jogos online em todo o mundo e África não foi excepção. Com mais horas passadas em casa, cresceram os downloads, a utilização e o nível de envolvimento nas plataformas digitais. Segundo os analistas da Mordor Intelligence, os jogos online têm potencial para se tornarem um dos pilares da economia digital africana nas próximas décadas, à medida que o continente reforça a conectividade e desenvolve novos talentos tecnológicos.
A convergência entre juventude, tecnologia e criatividade cultural poderá transformar África não apenas num grande mercado consumidor, mas também num centro emergente de produção de conteúdos digitais globais. Num mundo em que o sector dos jogos online já supera a dimensão combinada de muitos outros sectores do entretenimento, África começa finalmente a entrar no jogo e, desta vez, com potencial para desempenhar um papel decisivo no futuro da actividade.
Texto Celso Chambisso • Fotografia D.R
