A semana económica em Moçambique ficou marcada por novas projecções do Fundo Monetário Internacional (FMI) que apontam para uma recuperação gradual da actividade económica, pela persistência dos constrangimentos enfrentados pelo sector privado devido à escassez de combustíveis e por mais um desenvolvimento judicial internacional relacionado com o caso das dívidas ocultas.
O FMI anunciou esta semana que prevê um crescimento económico de 0,5% para Moçambique em 2026, sinalizando uma recuperação moderada após um período marcado pelo abrandamento da actividade económica. A projecção foi apresentada em Maputo pelo representante residente da instituição, Olamide Harrison, durante a divulgação do relatório Perspectivas Económicas Regionais para a África Subsaariana.
Segundo o responsável, a instituição está a actualizar as suas previsões macroeconómicas à luz dos dados mais recentes divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), admitindo a possibilidade de ajustamentos futuros. O FMI recordou que o crescimento económico de 2025 foi revisto em baixa para apenas 0,2%, reflectindo sobretudo o desempenho mais fraco dos sectores não extractivos.
Apesar dos desafios, a instituição mantém uma perspectiva de recuperação gradual da economia nacional, sustentada pela expectativa de melhoria das condições macroeconómicas e pela evolução dos mercados internacionais de matérias-primas. O organismo reafirmou igualmente a disponibilidade para continuar a apoiar o País através de instrumentos destinados a reforçar a estabilidade macroeconómica e a sustentabilidade das finanças públicas.
Entretanto, os dados do Purchasing Managers Index (PMI) do Standard Bank revelaram que o sector privado permaneceu em território de contracção durante o mês de Maio, evidenciando as dificuldades enfrentadas pelas empresas num contexto de escassez de combustíveis e de procura enfraquecida.
O índice situou-se em 49,9 pontos, ligeiramente acima dos 49,8 registados em Abril, mas ainda abaixo da marca dos 50 pontos que separa a expansão da contracção da actividade empresarial. Segundo o relatório, a falta de combustível continuou a afectar as cadeias de abastecimento, limitando a capacidade produtiva das empresas e reduzindo o poder de compra dos consumidores.
O estudo indica ainda que as novas encomendas registaram uma nova redução, enquanto a produção voltou a contrair-se pelo segundo mês consecutivo. O sentimento empresarial deteriorou-se significativamente, atingindo o nível mais baixo desde Novembro de 2016.
Apesar deste cenário, o emprego continuou a crescer pelo 12.º mês consecutivo, embora a um ritmo mais moderado. O economista-chefe do Standard Bank Moçambique, Fáusio Mussá, considerou que a manutenção do crescimento do emprego poderá estar associada à retoma das actividades ligadas ao projecto de gás natural liquefeito da Área 1, em Afungi, na província de Cabo Delgado.

No plano internacional, o caso das dívidas ocultas voltou a registar novos desenvolvimentos judiciais. O Ministério das Finanças da Suíça apresentou um recurso contra uma decisão do Tribunal Penal Federal que anulou uma multa aplicada à antiga directora de conformidade do Credit Suisse, Lara Warner.
O tribunal havia decidido anular a sanção de 127 mil dólares por considerar que o processo tinha ultrapassado os prazos legais para responsabilização. Contudo, as autoridades suíças decidiram contestar a decisão junto da Câmara de Recursos do Tribunal Penal Federal.
O caso está relacionado com uma transferência de cerca de 7,8 milhões de dólares realizada em Março de 2016, que, segundo as autoridades suíças, deveria ter sido comunicada às entidades de combate ao branqueamento de capitais. Os fundos foram transferidos do Ministério das Finanças de Moçambique para uma conta do Credit Suisse na Suíça e posteriormente encaminhados para os Emirados Árabes Unidos.
O recurso surge numa altura em que continuam a decorrer processos judiciais em várias jurisdições relacionados com o escândalo das dívidas ocultas, cuja revelação em 2016 desencadeou uma das mais graves crises económicas da história recente de Moçambique, levando à suspensão do apoio financeiro internacional, à forte desvalorização do metical e ao agravamento da situação das contas públicas.
A semana ficou igualmente marcada pelo debate em torno do financiamento das pequenas e médias empresas. Durante um encontro empresarial realizado em Maputo, o economista-chefe do Millennium bim, Oldemiro Belchior, defendeu a criação de um Fundo de Capitalização de Empresas para reforçar a capacidade financeira das PME e facilitar o acesso ao crédito. O especialista argumentou que a insuficiência de capital próprio continua a ser um dos principais obstáculos ao financiamento empresarial, defendendo uma maior utilização do mercado de capitais, dos fundos de investimento e dos fundos de pensões como fontes alternativas de financiamento.
Texto: Felisberto Ruco
