Maputo acolheu esta quinta-feira (11) a sessão de abertura da 3.ª Conferência Internacional Crescendo Azul, um encontro que reúne líderes políticos, especialistas, parceiros de desenvolvimento, representantes do sector privado e organizações da sociedade civil para debater o papel da economia azul no desenvolvimento sustentável do continente africano.
Na ocasião, o Presidente da República, Daniel Chapo, defendeu uma maior valorização dos recursos marinhos e reafirmou a ambição de Moçambique em posicionar-se como um actor estratégico da economia azul à escala regional e global, aproveitando a sua localização geográfica privilegiada e o vasto potencial dos seus recursos oceânicos.
No seu discurso, o chefe do Estado sublinhou que os oceanos representam uma das principais fronteiras de crescimento económico do século XXI e desempenham um papel determinante na segurança alimentar, energética e climática mundial. “O mundo já não discute se a economia azul é importante. O desafio actual consiste em determinar com que rapidez seremos capazes de converter o potencial dos oceanos em benefícios concretos para os nossos povos”, afirmou.
Daniel Chapo recordou que a história de Moçambique está profundamente ligada ao mar, destacando o papel desempenhado pelos antigos portos da ilha de Moçambique, Sofala, Angoche e Inhambane na ligação entre povos, culturas e mercados ao longo dos séculos. “O Índico não é apenas parte da nossa geografia, é parte da nossa história. Quando nos reunimos hoje para falar do futuro dos oceanos, estamos também a reencontrar uma parte importante da nossa própria identidade e a projectá-la para o futuro”, declarou.
A conferência decorre sob o lema “Crescimento Azul: Acelerando a Sustentabilidade Económica”, uma mensagem que, segundo o Presidente da República, desafia os países africanos a transformar recursos em prosperidade, conhecimento em desenvolvimento e potencial em oportunidades concretas para as populações.
Durante a cerimónia foi igualmente assinalada a inauguração do Centro Regional de Monitoria, Controlo e Vigilância das Pescas da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC), instalado em Maputo. Chapo considerou a iniciativa um marco importante na luta contra a pesca ilegal, não declarada e não regulamentada, classificando-a como uma demonstração de visão estratégica e de compromisso regional com a gestão sustentável dos recursos marinhos.
O chefe de Estado destacou que África possui uma das maiores reservas de capital azul do planeta, graças à extensão das suas zonas costeiras, à abundância de recursos pesqueiros, à biodiversidade marinha e aos corredores marítimos de relevância internacional. “Temos juventude, talento e capacidade de inovação. A questão não é saber se temos potencial, mas sim se teremos a capacidade colectiva de transformar esse potencial em prosperidade partilhada”, observou.
No caso de Moçambique, o Presidente da República salientou que o País dispõe de mais de 2600 quilómetros de costa e se encontra localizado numa das rotas marítimas mais estratégicas do mundo, o Canal de Moçambique, corredor fundamental para o comércio internacional. Segundo Daniel Chapo, esta posição geográfica confere ao País responsabilidades acrescidas em matéria de segurança marítima, mas também abre oportunidades para reforçar a integração regional, atrair investimentos e consolidar o papel de Moçambique na economia global.

A economia azul, acrescentou, deve ser encarada não apenas como uma política sectorial, mas como um instrumento estratégico de transformação económica e social, capaz de gerar emprego, promover a inclusão, reduzir desigualdades e fortalecer a soberania nacional. O Presidente da República destacou ainda o potencial de sectores emergentes como as energias renováveis oceânicas, o ecoturismo sustentável, a biotecnologia marinha e a aquacultura, áreas consideradas fundamentais para a diversificação económica e para a criação de oportunidades para jovens e mulheres.
Apesar das oportunidades, Chapo alertou para os desafios crescentes que ameaçam os ecossistemas marinhos, incluindo a poluição por resíduos plásticos, a degradação ambiental, os efeitos das alterações climáticas e a exploração insustentável dos recursos naturais. “O tempo das declarações já passou. Este é o tempo da implementação e dos resultados”, afirmou, defendendo uma resposta coordenada da comunidade internacional para proteger os oceanos e garantir a sustentabilidade dos seus recursos.
O combate à pesca ilegal, ao crime transnacional organizado, à pirataria e ao tráfico marítimo foi igualmente apontado como uma prioridade para os países da região, uma vez que estes fenómenos comprometem receitas públicas, empregos e a segurança das populações costeiras.
O chefe do Estado defendeu igualmente um reforço do investimento em investigação científica, inovação tecnológica e formação de recursos humanos especializados, considerando que o futuro da economia azul dependerá da capacidade dos países de produzir conhecimento e desenvolver soluções inovadoras para os desafios marítimos. Dirigindo-se à juventude africana, Daniel Chapo afirmou que os oceanos devem ser encarados como espaços de oportunidade, empreendedorismo e inovação, apelando a uma maior aposta na educação ligada às ciências do mar, à tecnologia e à investigação.
O Presidente da República reiterou ainda a necessidade de mobilizar mais financiamento internacional para apoiar projectos ligados à economia azul, defendendo mecanismos financeiros mais acessíveis e adaptados às necessidades dos países africanos. “A África não procura caridade. Procura parcerias, investimento e instrumentos financeiros que permitam transformar o potencial existente em crescimento inclusivo e sustentável”, declarou.
Ao encerrar a sua intervenção, Daniel Chapo manifestou a expectativa de que a Conferência Crescendo Azul se consolide como uma plataforma permanente de diálogo, cooperação e mobilização de soluções para o desenvolvimento sustentável dos oceanos. “Que as futuras gerações possam olhar para este momento e dizer que foi aqui que decidimos deixar um mar mais saudável, mais protegido e mais produtivo do que aquele que recebemos”, concluiu.
A 3.ª Conferência Internacional Crescendo Azul decorre até 12 de Junho, em Maputo, reunindo decisores políticos, especialistas, investidores e parceiros de desenvolvimento para debater o papel da economia azul no crescimento sustentável. O programa inclui sessões dedicadas à governação dos oceanos, à segurança marítima, à pesca e aquacultura, ao financiamento, às energias renováveis, à biodiversidade marinha, às alterações climáticas e ao comércio marítimo, com enfoque no reforço da cooperação regional e na utilização sustentável dos recursos oceânicos.
Texto: Felisberto Ruco
