“Moçambique Está Vulnerável à Turbulência Energética” Causada Pela Guerra no Médio Oriente • Diário Económico
A escalada militar no Médio Oriente está a colocar pressão sobre os mercados globais de energia e pode voltar a sentir-se, de forma directa, no bolso das famílias moçambicanas. Analistas ouvidos pelo Diário Económico dizem que o País, por ser importador líquido de combustíveis, “está infelizmente exposto” a este novo ciclo de instabilidade, num contexto em que o Estreito de Ormuz — uma das rotas marítimas mais estratégicas do mundo — tem sido apontado como epicentro do choque energético.
Orlando Mazuze, especialista em Relações Internacionais, considera que o conflito “tem muito potencial” para agravar o cenário global, sublinhando que “já está, inclusive, a causar ou a desencadear uma crise energética ao nível sistémico”. Na sua leitura, o risco nasce do facto de o palco da guerra coincidir com a região onde estão “os maiores produtores de petróleo a nível global”.
“O palco do conflito, que é a região do Médio Oriente e a região do Golfo, é o mesmo local em que estão países como a Arábia Saudita, o próprio Irão, o Iraque e os Emirados Árabes Unidos”, afirmou, defendendo que a instabilidade tende a reduzir produção e exportações. “Este conflito causa instabilidade na região e reduz drasticamente a produção de petróleo, e reduzindo esta produção também reduz a exportação do mesmo. Logo acaba por afectar a oferta de petróleo para o mundo.”
A lógica do mercado, sustentada, é imediata: “Quando a oferta for baixa, a procura será maior e automaticamente o preço também irá subir.” E, por se tratar de “um bem essencial para todas as economias”, Mazuze entende que o efeito se multiplica rapidamente para além do petróleo e do gás.
Ormuz e o risco nas rotas marítimas
Na mesma análise, Mazuze coloca especial ênfase no Estreito de Ormuz, por onde passa uma parte relevante do comércio energético mundial. “Na região do Golfo encontramos um estreito extremamente relevante, o Estreito de Ormuz, que é responsável pelo transporte de 20% de todo o petróleo que se produz ao nível mundial”, disse.
Para o especialista, o impacto da guerra não se mede apenas pela produção, mas também pela insegurança nas rotas. “O mar é uma plataforma importante e indispensável no comércio internacional, cerca de 80% do comércio internacional acontece através do mar. Portanto, o mar acaba por ser a maior auto-estrada do mundo em termos comerciais”, afirmou, defendendo que qualquer perturbação marítima tem reflexo nos custos e nos prazos de entrega.
No mesmo sentido, Wilker Dias, analista político nacional e internacional e docente na Universidade Alberto Chipande, considera que a instabilidade nas rotas “pode comprometer a economia do País”, porque obriga empresas a procurar alternativas mais longas e caras. “As companhias têm de usar vias alternativas, rotas mais longas, custos mais altos e demora na entrega dos produtos”, apontou.

Combustíveis, alimentos e inflação: “efeito dominó”
Para Mazuze, a subida do petróleo traduz-se rapidamente no aumento do custo de vida. “Se o petróleo sobe automaticamente, os combustíveis ficam mais caros. Ficando os combustíveis mais caros, entramos numa situação em que o transporte e os alimentos também aumentam de preço. E a inflação também irá subir. Portanto, isto é um efeito dominó”, declarou.
O especialista vinca que o encarecimento dos transportes (marítimo, aéreo e terrestre) tende a reflectir-se no preço final dos produtos: “É através dos combustíveis que os bens são transportados, e quanto mais caro o combustível for também será o preço do produto final.”
Wilker Dias concorda com o risco de agravamento do custo de vida, sobretudo num contexto de eventual escassez. “Seremos obrigados diante de uma escassez de combustível, obrigados a subir os custos”, afirmou, acrescentando que a pressão se sente também nos transportes públicos: “Os cidadãos que não têm carro particular vão sofrer com o custo do transporte.” Quanto à alimentação, deixou o aviso: “A alimentação pode estar afectada e o sector industrial que depende dos combustíveis também pode vir a sofrer.”
Metical sob pressão e investidores mais cautelosos
Wilker Dias chama também a atenção para o impacto cambial. Na sua leitura, uma subida dos preços internacionais pode aumentar a procura de divisas para importação, com efeitos no metical. “Se os preços sobem haverá necessidade de se tirar mais o metical para comprar dólares, o que pode causar pressão e até desvalorização a nível cambial”, disse.
O analista acrescenta que a inflação pode ganhar força num cenário de choque energético: “Isto também pode gerar inflação e a inflação acaba por causar custos elevados na carteira dos cidadãos.”
Do lado do investimento, Wilker Dias antevê maior prudência. “Este conflito pode afectar o investimento internacional, porque pode existir uma maior cautela por parte dos investidores”, afirmou. E detalhou onde pode causar mais dano: “Os grandes projectos económicos dependem muito das importações, e se as importações tenderem a demorar vão estender o prazo do investimento.” Além do tempo, aponta o custo: “É o aumento do custo dos equipamentos por conta da importação – se há falta de combustível, os preços também sobem.”
Mazuze, por seu turno, enquadra a situação como típica de um sistema de “interdependência” entre Estados: “A relação económica entre os Estados e o sistema internacional é de interdependência, e quando um conflito eclode, o outro Estado acaba por sentir um importante impacto.” Para Moçambique, remata, o risco é estrutural: “Moçambique está infelizmente exposto, exactamente porque depende da importação de petróleo e também do próprio gás natural para a manutenção da sua economia.”
“Ter reservas não é ter segurança energética”
Questionado sobre oportunidades para países com recursos energéticos, Mazuze diz que o contexto pode alterar papéis estratégicos, mas distingue reservas de capacidade real. “Há aqui uma dissonância entre a abundância destes recursos e a capacidade produtiva”, afirmou. E referiu que Moçambique, apesar de estar bem colocado em reservas de gás, continua vulnerável: “Ter abundância de recursos naturais não significa ter soberania ou segurança energética.”
Para o especialista, a resposta passa por construir capacidade interna e priorizar o mercado doméstico: “Pensar na possibilidade de, antes de exportar, abastecer o mercado doméstico e exportar o excedente.”
Wilker Dias, por sua vez, evitou previsões fechadas sobre aumentos imediatos no mercado interno, mas associou o risco ao factor tempo e às condições de navegação. “Tudo dependerá do nível de reservas existentes e também sobre como estará a retoma da circulação no Estreito de Ormuz”, afirmou, acrescentando: “Se isto não for resolvido em menos de um mês poderá trazer grandes complicações no nosso sistema de combustíveis e noutras áreas.”
Contexto do conflito e impactos já observados nos mercados
Nos últimos dias, a guerra no Médio Oriente entrou numa fase de escalada que afectou directamente a navegação e o comércio de energia. Segundo informação noticiada por agências internacionais, o actual conflito entre Estados Unidos, Israel e o Irão terá começado a 28 de Fevereiro de 2026, e a tensão intensificou-se com incidentes e ataques ligados à navegação na região, incluindo relatos de minas e ataques a embarcações no Estreito de Ormuz.
Esta instabilidade provocou forte volatilidade nos preços do petróleo, com relatos de subidas acentuadas e momentos em que os preços tocaram níveis não vistos desde 2022, num ambiente de receio quanto ao prolongamento das disrupções na oferta e no transporte.
A crise levou ainda a uma resposta coordenada de emergência: a Agência Internacional de Energia (IEA) anunciou uma libertação histórica de reservas estratégicas, com referência a um pacote de grande dimensão para tentar estabilizar o mercado.
Para além do petróleo, há sinais de perturbações em cadeias de fornecimento e noutros mercados de matérias-primas, com empresas a reorientarem fluxos logísticos perante as restrições no corredor do Golfo.
É neste ambiente — de disrupção energética e de custos logísticos em alta — que os analistas moçambicanos ouvidos pela nossa reportagem colocam Moçambique entre os países mais expostos, alertando para pressões no preço dos combustíveis, no custo de vida, no câmbio e no investimento.
O Governo garantiu que os preços dos combustíveis no mercado nacional deverão manter-se inalterados pelo menos até ao final de Abril, assegurando que as reservas actualmente disponíveis são suficientes para garantir o normal funcionamento da economia até ao início de Maio. Segundo o secretário de Estado do Tesouro e Orçamento, Amílcar Tivane, o País dispõe de cerca de 75 mil toneladas de combustíveis no mercado e aproximadamente 85 mil toneladas armazenadas nos terminais oceânicos, volumes que permitem assegurar o abastecimento interno no curto prazo.
Texto: Cleusia Chirindza & Felisberto Ruco