Economia

“Megaprojectos Ajudam na Confiança Mas Impacto em 2026 Será Moderado” • Diário Económico

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Num ano em que Moçambique já atravessa o primeiro trimestre sob sinais mistos da economia, a confiança empresarial continua a surgir como um dos pontos mais sensíveis do debate sobre o desempenho de 2026, ao mesmo tempo que as previsões de crescimento permanecem dispersas e condicionadas por factores como o custo do crédito, a evolução cambial e a procura interna. É neste quadro que os economistas ouvidos pelo Diário Económico alinham numa avaliação semelhante, reconhecendo que a retoma do Mozambique LNG liderado pela TotalEnergies, avaliado em cerca de 20 mil milhões de dólares, pode melhorar o sentimento e a percepção de risco, mas com efeitos ainda graduais sobre a economia real em 2026.

Constantino Marrengula, economista e antigo investigador do Centro de Aprendizagem e Capacitação da Sociedade Civil (CESC), considera que a narrativa de maior optimismo em torno do ciclo económico nem sempre acompanha os fundamentos. “O optimismo é mais político do que propriamente baseado em factos reais ligados ao fundamento da economia”, afirmou, acrescentando que existe “a tendência de comunicarmos que tudo está bem” e de projectar “a mensagem de que está tudo sob controlo”, quando, na sua perspectiva, “os factos e os fundamentos da economia não permitem dizer isso”.

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Moisés Nhanombe, economista e antigo investigador do Departamento de Investigação Konrad Adenauer da Universidade Católica de Moçambique, enquadra a tensão entre projecções e sentimento empresarial como um desfasamento entre expectativas estruturais e percepção de curto prazo, sublinhando que a confiança não é um indicador passivo, porque “influencia decisões concretas de investimento, contratação, expansão e gestão de risco”, podendo limitar a concretização de cenários mais optimistas se permanecer frágil.

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A leitura dos dois economistas cruza-se, sobretudo, na forma como descrevem a transmissão da incerteza para a economia real. Marrengula sintetiza esse mecanismo de forma directa: “Quando o sector privado tem expectativas que não são boas sobre o futuro da economia, deixa de investir”, salientando que o travão ao investimento tem custos “do ponto de vista do emprego e do ponto de vista do rendimento”.

Nhanombe, por seu turno, destaca que a persistência de cautela reflecte condições objectivas, referindo que a avaliação imediata das empresas tende a ser pressionada por crédito caro, procura moderada e incerteza, o que reforça comportamentos defensivos e adia decisões de expansão, especialmente fora dos sectores extractivos.

No plano das políticas internas e das finanças públicas, Marrengula relaciona o desempenho da actividade com o esforço de consolidação fiscal e com os seus efeitos no curto prazo. “O Governo vai provavelmente aumentar impostos”, disse, observando que isso significa “retirar dinheiro da economia” e que, se a despesa não acompanhar, “quando o Governo não gasta, a economia descende”.

O economista acrescenta que, num contexto em que investimento público e determinados gastos sociais funcionam como motores, a contenção tende a reduzir o impulso interno, uma vez que “tanto investimento público como gastos nos sectores sociais têm efeitos multiplicadores significativos sobre a economia”.

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Acesso limitado ao financiamento é apontado como um dos principais entraves à retoma

Nhanombe converge na ênfase sobre condições internas, ao defender que a materialização de trajectórias de crescimento depende de previsibilidade e de um ambiente em que o financiamento e as regras permitam a recuperação gradual do investimento privado e do emprego, sob pena de a economia real não acompanhar as projecções.

É na discussão sobre megaprojectos que o ponto comum se torna mais nítido. Nhanombe considera que, em 2026, o principal contributo do Mozambique LNG deverá ocorrer sobretudo por via indirecta, ao nível da confiança e da percepção de risco. “A reactivação de um investimento de grande dimensão envia um sinal de estabilidade institucional e possível redução do risco-País”, afirmou, admitindo que esse efeito reputacional pode melhorar a percepção de investidores, credores e empresários. Ao mesmo tempo, assinala limites de curto prazo:

“O impacto directo sobre o PIB em 2026 tende a ser limitado”, sendo que a fase inicial é intensiva em capital e envolve uma forte componente importada, reduzindo o efeito multiplicador imediato. Para o economista, a diferença estará no “grau de encadeamento local” e na capacidade de empresas moçambicanas integrarem a cadeia de fornecimento, caso contrário “os ganhos permanecerão concentrados” no curto prazo.

Marrengula, embora reconheça sinais associados à retoma liderada pela TotalEnergies, também relativiza a capacidade do projecto para compensar fragilidades acumuladas noutras frentes. “Entre o que vai entrar por via da TotalEnergies e o que poderá estar limitado nas três contas que mencionei, é muito provável que o efeito da entrada da TotalEnergies não contrabalance os efeitos negativos”, afirmou, situando o debate num conjunto mais amplo de condicionantes internas e externas.

Nhanombe acrescenta um alerta de política económica, ao considerar que “o risco de expectativas excessivas em torno do gás é real”, defendendo que o gás “não substitui reformas no ambiente de negócios, no sistema financeiro ou na qualificação da mão-de-obra”, nem resolve, por si só, constrangimentos imediatos como crédito caro, baixa produtividade e fraca diversificação.

A dimensão do financiamento externo surge, igualmente, como um tema de expectativa, mas com reservas sobre calendário e execução. Marrengula entende que “os recursos prometidos pelo Banco Mundial aliviam o orçamento do Estado, pelo menos na componente de investimento público”, referindo uma mobilização “de mais de 10 mil milhões de dólares”, mas assinala que “os investimentos associados ao organismo não são nada rápidos, são processos lentos”, apontando para uma eventual melhoria “lá para o último trimestre de 2026”.

O economista admite ainda a possibilidade de um acordo com o Fundo Monetário Internacional que abra espaço para mais recursos, afirmando que “ainda este ano, podemos ter um acordo fechado com o FMI”, embora ressalve não dispor de informação detalhada sobre o circuito decisório da instituição.

Apesar das nuances, ambos regressam ao mesmo ponto de fundo quando falam das condições para uma viragem mais sólida. Marrengula defende que o País “anda muito a procurar grandes coisas”, mas sustenta que “a melhoria da economia passa por medidas” internas e por “um trabalho interno para quebrar as barreiras” que afectam sobretudo os pequenos operadores e o sector informal, que descreve como parte determinante do tecido económico.

Nhanombe, por seu lado, insiste que a transformação de expectativas em crescimento efectivo exige estabilidade macroeconómica, previsibilidade e sinais concretos de recuperação do investimento privado e do emprego, com efeitos visíveis para lá dos grandes projectos.

Texto: Felisberto Ruco

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