As Chuvas Continuam a Sair Caro a Moçambique • Diário Económico
Moçambique sempre foi um país de chuvas sazonais intensas e inundações recorrentes. Porque é que continua a haver elevadas perdas humanas e prejuízos económicos? Especialistas alertam: o custo da inacção continua a ser pago pelas populações.
O arranque do ano de 2026 ficou marcado pelas chuvas intensas que provocaram inundações em vários pontos do País, destruindo o pouco que muitos conquistaram com sacrifício. Famílias inteiras viram as suas casas submersas, campos agrícolas perdidos e meios de subsistência comprometidos, num cenário que se repete com inquietante regularidade. Mais uma vez, a capacidade do Governo para responder, prevenir e mitigar os efeitos destes fenómenos extremos foi colocada à prova.
Além da dimensão humanitária, as cheias voltam a expor fragilidades estruturais, desde a falta de ordenamento do território até à precária gestão de infra-estruturas e recursos públicos.
Entre a resposta de emergência e a necessidade de investir de forma consistente na prevenção, o País continua preso a um ciclo de perdas recorrentes, num contexto em que as mudanças climáticas agravam riscos e leva cada época chuvosa a novos extremos.
Apesar dos investimentos realizados e do apoio internacional recebido ao longo das décadas, a vulnerabilidade estrutural mantém-se.
Moçambique numa posição frágil
Para o activista ambiental Rui Silva, Moçambique encontra-se numa posição particularmente frágil face às mudanças climáticas. “Somos, geograficamente, um país muito afectado pelas consequências das mudanças climáticas. Embora sejamos dos países que menos poluem, somos dos mais vulneráveis aos seus impactos”, afirmou, sublinhando que a intensidade das chuvas registadas nos últimos anos está directamente ligada à crise climática global. Segundo Rui Silva, embora a ocorrência de chuvas faça parte do ciclo climático do País, a sua severidade tem vindo a aumentar. “A intensidade tem muito que ver com a crise climática”, referiu, acrescentando que alguns episódios recentes “não ficam muito atrás, ou até superam, aquilo que se viveu em 2000”, um dos piores anos de cheias na memória recente dos moçambicanos.
A sucessão de eventos extremos impede a recuperação entre crises: “Passamos de uma situação trágica para outra, sem tempo para recuperar”
Carlos Serra
Cada vez mais difícil recuperar entre crises
Na mesma linha, o ambientalista e académico Carlos Serra considera que Moçambique se encontra hoje numa situação de maior vulnerabilidade do que há duas décadas. “Há uma tendência para maior frequência e maior gravidade dos fenómenos atmosféricos extremos”, afirmou, alertando que os impactos são cada vez mais difíceis de absorver.
Segundo Carlos Serra, a sucessão de eventos extremos impede a recuperação entre crises. “Passamos de uma situação trágica para outra, sem tempo para recuperar”, explicou, sublinhando que esta realidade se agrava enquanto persistirem práticas como a ocupação de terras baixas, a construção em zonas inundáveis e a aposta em infra-estruturas pouco resilientes. “Insistimos em obras que não são capazes de suportar certos fenómenos extremos”, criticou.
Ordenamento do território: leis existem, implementação falha
Apesar de Moçambique dispor de uma política e de uma lei de ordenamento do território, aprovadas em 2007, bem como de regulamentos e planos, a vários níveis (nacional, provincial, distrital e municipal), Carlos Serra aponta um défice na implementação. “Temos uma imensidão de planos, mas uma capacidade muito limitada de os pôr em prática. Muitos acabam por se tornar letra morta”, afirmou. O académico sublinha que existe um desfasamento profundo entre o quadro legal e a realidade no terreno. “As dinâmicas de ocupação do território acontecem independentemente do que está disposto na lei e nos planos”, explicou, acrescentando que a recente lei de Gestão e Redução do Risco de Desastres, aprovada em 2020, apesar de inovadora, enfrenta os mesmos obstáculos.
A população continua a ocupar “áreas muito vulneráveis e, quando há cheias, é a primeira a ser afectada. Pensamos em soluções quando já temos o problema: não antevemos o risco”, criticou. O reassentamento de populações em zonas de cheias enfrenta resistência social, mas, segundo o activista, é inevitável. “Entendo essa resistência, mas esta mudança tem de ser feita, para bem de todos”, afirmou, lembrando que as cheias recentes resultaram também em mortes.

Desflorestação, terras húmidas e resíduos agravam efeitos
Carlos Serra alerta ainda para a relação directa entre desflorestação e aumento do risco de desastres. “Quanto menos vegetação tivermos, mais vulneráveis ficamos às cheias, aos ciclones e à erosão dos solos”, afirmou, destacando a importância das florestas como barreiras naturais. A ocupação de terras húmidas e mangais é outro factor crítico. “Estas áreas funcionam como esponjas, absorvendo o excesso de água da chuva. Quando são destruídas, o risco aumenta”, explicou. Por seu lado, Rui Silva acrescenta que, nas áreas urbanas, a má gestão dos resíduos sólidos agrava significativamente os efeitos das chuvas. “O lixo não vai parar às valas de drenagem por livre e espontânea vontade. É por nossa culpa”, afirmou, defendendo uma mudança urgente de mentalidade. As valas obstruídas, explicou, alargam as inundações e contribuem para o colapso dos sistemas de drenagem.
Apesar disso, Rui Silva reconhece avanços pontuais por parte das autoridades municipais. “Há zonas da cidade que não sofreram agora o que sofreram no passado”, observou, atribuindo essas melhorias à limpeza das valas e à substituição de condutas antigas, algumas ainda do período colonial. Ainda assim, admite que resolver o problema nos bairros periféricos continua a ser um enorme desafio.
“O ideal seria deitar tudo abaixo e começar de novo, mas isso não é possível”, afirmou, apontando a drenagem subterrânea como alternativa, embora financeiramente exigente.
Texto Nário Sixpene • Fotografia D.R.