Economia

FMI diz que Moçambique precisa de meio milhão de empregos por ano ou caos social

Relatório do FMI alerta que o país precisa de criar 550 mil novos empregos anuais até 2030 para evitar o agravamento da pobreza e da instabilidade social. A janela de oportunidade está a fechar-se.

Num país onde metade da população tem menos de 17 anos e onde nascem, por ano, centenas de milhares de jovens à procura do seu primeiro emprego, Moçambique enfrenta aquela que pode ser a maior ameaça silenciosa à sua estabilidade: uma bomba-relógio demográfica que o mercado de trabalho não está preparado para desactivar. É esta a conclusão que ressalta do mais recente relatório do Fundo Monetário Internacional (FMI), divulgado em Fevereiro de 2026.

Os números são tão imponentes quanto perturbadores. Com uma taxa de fertilidade de aproximadamente cinco filhos por mulher e uma população a crescer a quase três por cento ao ano, Moçambique vai precisar de criar cerca de 550 mil novos postos de trabalho por ano até 2030 — e essa necessidade continuará a crescer nas duas décadas seguintes. Não se trata de uma projecção optimista: é o mínimo indispensável para absorver os jovens que, anualmente, chegam à idade activa.

Quarenta e cinco por cento da população moçambicana tem menos de 15 anos. A idade mediana é de 17 anos — muito abaixo da média global e mesmo da média africana. Em termos práticos, isso significa que a maior parte dos moçambicanos ainda não entrou no mercado de trabalho. Quando o fizer, o que encontrará?

“Moçambique gerou apenas um quarto dos empregos por unidade de crescimento económico quando comparado com os mercados emergentes fora de África Subsariana.”
— FMI

O problema não é apenas a dimensão da procura. É, sobretudo, a fraqueza estrutural do modelo de crescimento económico do país. Segundo o FMI, a ligação entre crescimento e criação de emprego em Moçambique é extraordinariamente débil: o país gerou apenas um quarto dos empregos por unidade de crescimento do PIB per capita, em comparação com os mercados emergentes fora de África Subsariana.

A explicação está, em parte, na estrutura da economia moçambicana. Nos últimos anos, o crescimento foi puxado pela indústria extractiva — nomeadamente pelos grandes projectos de gás natural liquefeito (GNL) no norte do país. Estas obras geram riqueza, mas criam poucos empregos. São intensivas em capital e em tecnologia importada, não em mão-de-obra local. Para a maioria dos moçambicanos, especialmente os jovens sem formação especializada, estes projectos existem num mundo paralelo ao seu.

Em contrapartida, o sector manufactureiro — historicamente o grande motor de emprego formal nos países em desenvolvimento — tem estado em contracção desde o início dos anos 2000. A indústria que poderia absorver trabalhadores com baixas qualificações e transformá-los progressivamente em mão-de-obra qualificada está a encolher, não a crescer.

Para os que conseguem trabalho, a realidade é, em grande medida, a da informalidade. Noventa e cinco por cento dos empregos em Moçambique situam-se fora da economia formal. Isso significa salários baixos, ausência de protecção social, nenhuma garantia de estabilidade e, frequentemente, trabalho agrícola de subsistência. O sector informal representa cerca de um terço do PIB, mas é o universo laboral de quase toda a população activa.

A agricultura, que emprega três quartos da força de trabalho e representa um quarto do PIB, é o coração desta informalidade. Mas é uma agricultura de baixa produtividade: apenas doze por cento da área cultivável está a ser utilizada, os agricultores — na sua maioria pequenos camponeses — têm acesso limitado a crédito, a insumos modernos e a infraestruturas de irrigação. O potencial existe, mas permanece largamente por aproveitar.

As consequências desta equação — população jovem a crescer, empregos a escassear, informalidade dominante — já se fazem sentir. Dois terços da população vivem abaixo da linha de pobreza, contra 45 por cento em 2014. Num espaço de dez anos, Moçambique recuou décadas nos indicadores sociais. O índice de desenvolvimento humano das Nações Unidas coloca o país em 182.º lugar num total de 193 nações.

Sem emprego suficiente, a pobreza e a insegurança alimentar tenderão a agravar-se, alerta o FMI, aumentando o risco de tensões sociais. Não se trata de uma ameaça abstracta: as perturbações que se seguiram às eleições de Outubro de 2024 ilustram quanto é frágil a coesão social num país onde a maioria da população não tem acesso a uma vida digna.

O relatório do FMI não se limita a diagnosticar. Aponta um caminho — exigente, mas possível. Para transformar a onda demográfica num dividendo, Moçambique precisa de apostar num modelo de crescimento intensivo em emprego, liderado pelo sector privado e ancorado na diversificação económica. Isso significa apostar na agro-indústria, no turismo e nos serviços modernos — sectores com capacidade real de absorver trabalhadores com diferentes níveis de qualificação.

Significa também investir na modernização da agricultura, na escolarização e qualificação dos jovens, na expansão do crédito ao sector privado — hoje fortemente limitado pela dominância fiscal do Estado no sistema bancário — e na melhoria do ambiente de negócios, actualmente penalizado pela corrupção e por uma justiça pouco independente.

A janela de oportunidade existe. A demografia, que hoje parece uma ameaça, pode tornar-se num activo extraordinário — mas apenas se as políticas certas forem implementadas com urgência e determinação. Como sublinha o FMI, o relógio está a contar.

Imagem: DR

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