“Modelo Económico Baseado em Importações Fragiliza Economia de Moçambique”, Diz Investigador • Diário Económico
O analista Joseph Hanlon considera que a fragilidade da economia moçambicana está ligada ao modelo económico adoptado nas últimas décadas, fortemente dependente de importações, contratos públicos e receitas associadas ao sector extractivo, com reduzido investimento na produção interna e na criação de emprego.
De acordo com boletim “Mozambique News Reports & Clippings”, numa análise recente sobre a evolução económica do País, Hanlon sustenta que esta estrutura económica contribui para manter o crescimento frágil e limita a capacidade de geração de oportunidades para a maioria da população.
A avaliação surge num contexto em que instituições internacionais têm vindo a alertar para o agravamento dos riscos macroeconómicos em Moçambique. A consultora Oxford Economics colocou recentemente o País no nível mais elevado de risco económico e político entre 25 economias africanas analisadas, enquanto o Standard Bank advertiu para pressões crescentes sobre a balança de pagamentos e as finanças públicas.
Segundo Hanlon, apesar das expectativas em torno do desenvolvimento do gás natural liquefeito, o impacto económico do sector poderá demorar mais tempo do que o antecipado. Citações de análises financeiras indicam que poderão ser necessários quase dez anos para que o gás comece a contribuir de forma significativa para as receitas do Estado, enquanto os efeitos na redução da pobreza poderão levar ainda mais tempo a materializar-se.
Dados do Instituto Nacional de Estatística mostram que o Produto Interno Bruto registou uma contracção de 0,5% no último ano. Embora o sector extractivo tenha mantido algum dinamismo, o restante da economia contraiu 1,6%, evidenciando fragilidades no tecido produtivo nacional.
Para 2026, as previsões de crescimento continuam modestas. O Standard Bank estima uma expansão de 1,5%, enquanto a Oxford Economics aponta para apenas 0,3%, valores que reflectem um contexto de actividade económica limitada.
Hanlon sublinha que a dependência de importações tem sido incentivada por um modelo económico que privilegia a intermediação comercial em detrimento da produção local. Neste quadro, grande parte dos bens de consumo e até produtos alimentares continuam a ser adquiridos no exterior, reduzindo os incentivos ao desenvolvimento de cadeias produtivas internas.

A situação é agravada pela pressão sobre as contas externas e pela escassez de divisas, que tem levado alguns bancos comerciais a restringir pagamentos internacionais. Ao mesmo tempo, a dívida pública continua a crescer. Dados divulgados recentemente indicam que o endividamento do Estado atingiu cerca de 18 mil milhões de dólares, com o Governo a recorrer cada vez mais ao financiamento interno devido às dificuldades de acesso a crédito externo.
Outro elemento de preocupação é a possível desvalorização do metical. Vários analistas consideram que a moeda nacional poderá estar sobrevalorizada entre 20% e 25%, o que, a confirmar-se, poderá levar a uma subida dos preços das importações e agravar o custo de vida.
Para Hanlon, estes factores revelam limitações estruturais da economia moçambicana, que continua fortemente dependente de recursos naturais e de actividades ligadas ao comércio e às importações.
O analista sustenta que, sem maior investimento em sectores produtivos capazes de gerar valor acrescentado e emprego, o crescimento económico poderá permanecer limitado, mesmo com o avanço dos projectos de exploração de gás natural.
Nascido nos Estados Unidos da América em 1941, Joseph Hanlon é jornalista e professor sénior de Política e Prática de Desenvolvimento na Open University, no Reino Unido. Durante vários anos viveu em Moçambique, onde desenvolveu grande parte do seu trabalho académico e de investigação, sendo hoje considerado um dos mais reconhecidos estudiosos estrangeiros da história política e económica do País.
Autor de diversas obras sobre Moçambique, Hanlon tem analisado temas como a governação, a economia política, a gestão de recursos naturais e os conflitos armados. É também responsável pela publicação do boletim “Mozambique News Reports & Clippings”, uma compilação regular de notícias e análises sobre a política, economia e sociedade moçambicanas amplamente utilizada por investigadores, diplomatas e analistas que acompanham a evolução do País.