Moçambique está entre os países mais expostos ao agravamento do custo de vida devido à redução das importações de fertilizantes, na sequência da interrupção do tráfego marítimo no Estreito de Ormuz, segundo um alerta das Nações Unidas, divulgado pela Lusa.
De acordo com o relatório “Interrupções no Estreito de Ormuz: implicações para o comércio global e o desenvolvimento”, divulgado pela Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), a instabilidade naquela rota estratégica poderá limitar o acesso a fertilizantes em economias mais vulneráveis, com efeitos directos na produção agrícola e nos preços dos alimentos.
“A escalada do conflito que afecta a região do Estreito de Ormuz reflecte-se cada vez mais nos mercados de fertilizantes, interligando as interrupções no fornecimento de energia e no transporte marítimo aos mercados agrícolas, ao futuro do abastecimento alimentar e ao comércio”, refere o documento.
Segundo a UNCTAD, Moçambique importou, em 2024, cerca de 22% dos fertilizantes através daquele canal, a partir do Golfo Pérsico, evidenciando uma dependência significativa de uma rota actualmente sob tensão geopolítica. Países como Tanzânia, Sudão e Sri Lanka apresentam níveis ainda mais elevados de exposição.
A organização sublinha que o aumento dos custos de energia, fertilizantes e transporte — incluindo fretes marítimos, combustíveis e prémios de seguro — poderá traduzir-se numa subida generalizada dos preços dos alimentos, afectando de forma mais severa as populações de menor rendimento.
O relatório destaca ainda a forte concentração do comércio global de fertilizantes, factor que amplifica o risco de disrupções. Cerca de um terço do comércio marítimo mundial destes insumos passa pelo Estreito de Ormuz, totalizando aproximadamente 16 milhões de toneladas transportadas anualmente a partir do Golfo Pérsico.
A crise intensificou-se após ataques militares envolvendo os Estados Unidos e Israel contra o Irão, seguidos de uma retaliação que incluiu o encerramento do estreito e acções contra infra-estruturas estratégicas na região.
Para além dos fertilizantes, o Estreito de Ormuz é responsável pelo transporte de cerca de 20% do petróleo mundial comercializado por via marítima, bem como de volumes significativos de gás natural liquefeito, o que reforça o seu papel crítico na estabilidade dos mercados energéticos e agrícolas globais.
A escalada do conflito no Médio Oriente está a produzir efeitos visíveis sobre a economia global, travando a trajectória de recuperação que se vinha consolidando após períodos de instabilidade recente. De acordo com a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), a perturbação do fluxo de petróleo através do Estreito de Ormuz intensificou os riscos inflacionistas, ao pressionar os custos energéticos e encarecer as cadeias de produção e transporte à escala mundial.
Este novo contexto geopolítico levou a uma revisão em baixa das perspectivas de crescimento global, com o Produto Interno Bruto mundial a abrandar de 3,3% em 2025 para 2,9% em 2026, reflectindo o impacto combinado da subida dos preços da energia e da incerteza nos mercados. Em paralelo, a inflação nos países do G20 deverá atingir 4,0% em 2026, agravando o custo de vida e reduzindo o poder de compra, sobretudo nas economias mais vulneráveis e dependentes de importações, como Moçambique.

