Especialista Considera Que Receitas do Gás “Não Evitarão Agravamento da Crise Económica” • Diário Económico

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As receitas provenientes da exploração de gás natural em Moçambique não deverão ser suficientes para travar o agravamento da crise económica no País, segundo uma análise do jornalista e académico Joseph Hanlon, baseada num recente relatório do Banco Mundial.

De acordo com o analista, o actual modelo económico, marcado por elevados níveis de endividamento e crescimento da despesa pública, poderá absorver grande parte das receitas futuras do gás, limitando o seu impacto no desenvolvimento. O relatório indica que, sem reformas estruturais, uma parcela significativa dessas receitas até 2042 poderá ser canalizada para cobrir desequilíbrios fiscais acumulados, em vez de financiar investimentos estratégicos.

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A análise sublinha que as projecções do próprio Governo apontam para um crescimento económico entre 1% e 2% no período 2026-2028, valor inferior ao ritmo de crescimento populacional, o que, na prática, se traduzirá num aumento da pobreza e na deterioração das condições de vida.

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O documento destaca ainda que a economia moçambicana enfrenta fragilidades estruturais profundas, com destaque para o peso da massa salarial do sector público, que atingiu 15% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2025, e para o nível elevado da dívida pública, considerada insustentável. Só os encargos com salários e juros absorveram 87% das receitas fiscais, reduzindo significativamente a capacidade do Estado de investir em infra-estruturas e serviços essenciais.

Outro factor crítico identificado é o fraco desempenho do sector agrícola, que emprega mais de 70% da população activa. A baixa produtividade, a limitada integração nos mercados e a escassez de apoio técnico e financeiro mantêm a maioria da população rural numa situação de pobreza persistente.

Hanlon contraria a narrativa de que o gás natural poderá representar uma solução rápida para os desafios económicos do País, defendendo que os benefícios efectivos poderão demorar cerca de 15 anos a materializar-se, num contexto em que as pressões fiscais continuam a aumentar.

O Banco Mundial alerta ainda que a actual trajectória económica poderá comprometer mais de 50 mil milhões de dólares em investimento directo estrangeiro, sobretudo nos projectos de gás, caso não sejam implementadas reformas urgentes para estabilizar as finanças públicas e dinamizar sectores produtivos como a agricultura.

Nascido nos Estados Unidos da América em 1941, Joseph Hanlon é jornalista e professor sénior de Política e Prática de Desenvolvimento na Open University, no Reino Unido. Residente em Moçambique por longos anos, é considerado um dos mais reconhecidos estudiosos estrangeiros sobre a história e a política do País.

Com várias obras dedicadas à economia e aos conflitos moçambicanos, Joseph Hanlon explicou que o seu mais recente livro, Moçambique Recolonizado através da Corrupção, analisa a relação entre os planos económicos do FMI e do Banco Mundial e os grandes escândalos de corrupção e assassinatos políticos no País, incluindo os do jornalista Carlos Cardoso e do economista Siba-Siba Macuácua.

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