O economista-chefe do Standard Bank Moçambique Fáusio Mussá defendeu esta quarta-feira (20), em Maputo, a necessidade de expandir os mecanismos de financiamento destinados às pequenas e médias empresas (PME), alertando que o actual contexto económico global continua a agravar as dificuldades enfrentadas pelo sector empresarial moçambicano.
A intervenção foi feita durante o painel “Da Informação à Acção – Oportunidades para o Crescimento do Comércio Africano”, realizado no âmbito da apresentação do Africa Trade Barometer do Standard Bank.
Segundo o economista, a economia mundial enfrenta actualmente sucessivos choques externos com impacto directo sobre países frágeis e dependentes das importações, como Moçambique. “Nós, no mundo, vivemos uma situação bastante complexa, que é um choque global da oferta”, afirmou.
Fáusio Mussá explicou que os efeitos económicos da pandemia, da guerra na Ucrânia e das tensões no Mediterrâneo continuam a pressionar os preços internacionais e a disponibilidade de produtos estratégicos, sobretudo combustíveis. “Nós já enfrentamos escassez de combustível, e esta situação é muito difícil de gerir, porque também dependemos do resto do mundo para aceder a este produto”, declarou.
Na sua análise, o economista considera inevitável que o País continue a ajustar os preços internos dos combustíveis para garantir abastecimento regular e evitar rupturas no mercado. “O Governo decidiu, de forma muito sábia, que é impraticável um subsídio genérico aos combustíveis”, afirmou.
Mussá observou ainda que o aumento dos custos energéticos poderá voltar a pressionar a inflação e limitar a recuperação económica, obrigando o Banco de Moçambique a manter prudência na condução da política monetária. “É pouco provável que haja alguma decisão de aumentar as taxas de juro neste ano. Provavelmente o banco central vai primeiro avaliar os impactos”, afirmou.
O economista alertou igualmente para os riscos associados à escassez de moeda externa, numa altura em que o aumento da factura de combustíveis está a consumir parte significativa das divisas disponíveis no mercado nacional. “Temos, neste momento, uma factura de combustíveis quase três vezes superior àquilo que pagávamos mensalmente antes”, declarou.

Segundo explicou, a prioridade dada à importação de combustíveis poderá reduzir a disponibilidade de moeda estrangeira para outros sectores produtivos da economia. “Se houver priorização de moeda externa para combustíveis, então os outros sectores vão ficar com menos”, alertou.
Apesar das perspectivas positivas em torno dos grandes investimentos ligados ao gás natural, Fáusio Mussá considerou que a recuperação económica deverá continuar desigual entre os sectores extractivos e o restante tecido empresarial nacional. “Não ficaria admirado se tivéssemos uma lenta recuperação do sistema económico, onde a indústria extractiva lidera a aceleração, mas o resto da economia continua muito constrangida”, afirmou.
O economista sublinhou que as pequenas e médias empresas permanecem entre os segmentos mais vulneráveis da economia, sobretudo devido às dificuldades persistentes de acesso ao crédito bancário. “As PME não têm recursos para enfrentar esta volatilidade”, declarou.
Segundo Mussá, mesmo num contexto de taxas de juro mais baixas, o financiamento continua inacessível para grande parte das PME moçambicanas. “O acesso ao financiamento bancário continua a ser difícil para alguns segmentos da sociedade, sobretudo para as pequenas e médias empresas”, afirmou.
Face a este cenário, o economista defendeu o reforço e a expansão dos fundos públicos e mecanismos alternativos de financiamento dirigidos às PME. “Talvez fosse um bom momento para reflectir até que ponto estes fundos que estão a ser criados podem estender o seu âmbito para atingir as pequenas e médias empresas”, sustentou.
Entre os instrumentos mencionados, destacou o Fundo de Desenvolvimento Local e os fundos de apoio ao empreendedorismo feminino, defendendo que estes mecanismos podem funcionar como “uma janela de oportunidade” para apoiar a economia informal e os pequenos negócios. “É o momento para olhar para estes fundos como um recurso que pode ajudar a economia das pequenas e médias empresas”, acrescentou.
A sessão integrou o painel “Da Informação à Acção – Oportunidades para o Crescimento do Comércio Africano”, moderado por Clóves Muluana, especialista de Comércio Internacional e Capital de Exploração do Standard Bank Moçambique. O debate contou ainda com as participações de Kudzai Guvi, responsável pela Inteligência de Mercado da Banca Comercial e de Negócios do Grupo Standard Bank, Leonel Moniquela, especialista em Operações de Comércio Internacional na Área da Banca de Investimento e Empresas, e Donald Larson, director-executivo da Sunshine Nut Company.
O evento reuniu representantes do sector bancário, empresários, investidores e especialistas em comércio internacional para discutir os impactos do actual contexto económico global sobre o comércio africano, bem como soluções destinadas a reforçar a competitividade das empresas moçambicanas e acelerar o comércio intra-africano.
Texto: Felisberto Ruco
