Empresas sem capacidade de pagar no exterior, companhias aéreas a recuar e hotéis sob pressão: crise cambial expõe fragilidades estruturais e afecta a competitividade do País.
A escassez de divisas em Moçambique é um problema incontornável. Empresas enfrentam dificuldades para importar, o turismo perde fôlego e a confiança no mercado dá sinais de erosão. Para o economista da Confederação das Associações de Económicas (CTA), Eduardo Sengo, o diagnóstico é claro: “É um problema grave e que afecta o desempenho da economia”.
Apesar de o País apresentar reservas internacionais consideráveis, o acesso à moeda estrangeira continua limitado, revelando falhas estruturais na economia e na gestão das receitas externas. Os números ajudam a perceber parte do problema. Em 2023, a receita estimada com a exportação de castanha de caju “foi de cerca de 200,9 milhões de dólares, mas apenas 57,3 milhões foram reportados ao Banco de Moçambique”, explica o economista, apontando para uma subavaliação de aproximadamente 143,6 milhões.
Ao nível da balança comercial, houve melhorias aparentes. A cobertura das importações pelas exportações subiu para 87% em 2024. Mas o número esconde fragilidades. “A economia fora dos grandes projectos continua vulnerável e altamente dependente das importações”, diz o especialista, lembrando que, sem o sector extractivo, a cobertura cai para apenas 22%.
A dependência de combustíveis, que representam mais de metade das importações, agrava ainda mais o quadro, expondo o País a choques externos e à volatilidade dos preços internacionais. Este desequilíbrio ajuda a explicar o défice crónico da conta corrente, com importações consistentemente superiores às exportações ao longo da última década.
No mercado cambial, a situação agravou-se entre 2024 e 2025. A disponibilidade de divisas caiu, e as empresas passaram a enfrentar dificuldades reais para pagar a fornecedores externos. Ao mesmo tempo, os bancos comerciais inverteram o seu papel. Deixaram de injectar divisas e passaram a absorvê-las, retirando cerca de 4,8 milhões de dólares por dia do mercado. Apesar de alguma estabilidade no câmbio oficial, os sinais de pressão são visíveis. “No mercado informal os preços sobem diariamente”, e “alguns produtos foram descontinuados das prateleiras, devido à falta de divisas”, sublinha Sengo.
Falta de divisas condiciona turismo
A escassez de divisas está a ter um impacto cada vez mais visível no turismo em Moçambique e pode comprometer a competitividade do País enquanto destino. Segundo os operadores do sector, o problema, para o qual os economistas alertam, é que há empresas com dificuldades em efectuar pagamentos no estrangeiro. Como consequência, há companhias aéreas a reduzir as operações e hotéis sob pressão para manter os padrões de qualidade.
No mercado cambial, a situação agravou-se entre 2024 e 2025. A disponibilidade de divisas caiu, e as empresas passaram a enfrentar dificuldades reais para pagar a fornecedores externos
O líder da agência de viagens Cotur, Noor Momade, descreve uma situação de pressão crescente: “O impacto é sentido directamente na aquisição de serviços internacionais, nas nossas relações com companhias aéreas, plataformas globais e outros fornecedores no estrangeiro”.
Companhias aéreas e hotéis já sentem o impacto
Dados da Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA, sigla em inglês) revelam que, em Abril de 2025, Moçambique tinha acumulado 205 milhões de dólares em receitas das companhias aéreas bloqueadas para repatriação — um aumento em relação aos 127 milhões de dólares registados seis meses antes. Mesmo após alguma redução, o valor ainda se situava em cerca de 91 milhões de dólares, em Outubro. No terreno, as consequências já são evidentes. Momade refere que algumas companhias aéreas começaram a ajustar as suas operações. A Airlink admite suspender a venda de bilhetes a nível local, enquanto a Emirates impediu que as agências moçambicanas emitam bilhetes. Outras, como a Qatar Airways e a Ethiopian Airlines, continuam a operar, mas com restrições. “Há sinais cada vez mais evidentes de pressão sobre a própria sustentabilidade das operações das companhias aéreas”, afirma o dirigente da Cotur.
No sector hoteleiro, os problemas também se avolumam. O empresário Dado Gulamhussen, que foi director-geral de operações do grupo VIP, em Moçambique, afirma que estas dificuldades já fazem parte do quotidiano. “A escassez de divisas tem um impacto directo e profundo nas operações do sector hoteleiro, nomeadamente na sua capacidade de honrar os compromissos assumidos com fornecedores internacionais e de garantir a continuidade dos serviços essenciais”. Segundo o responsável, num sector que depende das importações, o impacto é imediato. “Estas restrições obrigam os operadores a adoptarem uma abordagem mais rigorosa e cautelosa na gestão”.
A situação afecta a qualidade do serviço. “Começam a surgir sinais evidentes de pressão sobre os padrões de qualidade, decorrentes da dificuldade em aceder a bens e serviços importados”, diz o empresário.
Outra questão sensível são as plataformas internacionais usadas para gestão de serviços turísticos. “Quaisquer restrições de acesso a moeda estrangeira podem comprometer a visibilidade e a competitividade do destino no mercado global. Quando há problemas de pagamento, a incerteza e as dificuldades no planeamento operacional aumentam”, explica Gulamhussen.
Risco para a competitividade e confiança no investimento
Os alertas também vêm de fora. O Fundo Monetário Internacional (FMI) já indicou que a escassez de divisas está a prejudicar a actividade económica, enquanto o Banco Mundial assinalou impactos negativos no comércio e no investimento. Para os operadores, o risco é evidente. “Se um turista se deparar com um destino com ligações aéreas limitadas, poderá simplesmente optar por outro”, adverte Noor Momade. No que diz respeito ao investimento, o efeito é semelhante: “As dificuldades em repatriar receitas e em aceder a moeda estrangeira minam a confiança dos potenciais investidores”. O presidente da Cotur assinala, ainda assim, um eventual ponto positivo: “Poderá ser uma oportunidade para reforçar a produção local e repensar o modelo económico”.
Quais as necessidades urgentes?
Para Noor Momade, a prioridade é “melhorar urgentemente a previsibilidade dos pagamentos no estrangeiro”, diz, apelando a uma “coordenação entre o Governo, o Banco de Moçambique, o sector bancário e os operadores de mercado para reduzir os estrangulamentos e dar confiança ao mercado turístico”. Num sector identificado pelo Banco Mundial como estratégico para o emprego e para o crescimento, a crise cambial torna-se um teste à capacidade do País para sustentar o seu próprio desenvolvimento.
Do lado das soluções, o Banco de Moçambique aumentou a taxa mínima de conversão de receitas de exportação para 50%, numa tentativa de injectar mais liquidez. A medida teve algum efeito, mas não resolve o problema central. Para Eduardo Sengo, a questão está na repatriação de receitas, sobretudo dos grandes projectos. “Com uma taxa de cobertura de exportações de cerca de 87%, Moçambique não deveria ter estas dificuldades”, defende, sendo directo: “O Banco de Moçambique deve instar os grandes projectos a repatriar receitas de exportação”. Actualmente, 66% das exportações estão concentradas no sector extractivo, o que reforça a necessidade de controlo e coordenação institucional. “Os Ministérios devem analisar, caso a caso, como está a ser tratada a receita de exportação. Nos casos de prevaricação, devem ser instados a repatriar os fundos”, sustenta. Enquanto isso não acontecer, a escassez de divisas continuará a condicionar sectores estratégicos como o turismo e a limitar o crescimento económico.
Texto Germano Ndlovo • Fotografia D.R

