A semana económica ficou marcada pelo agravamento das pressões sobre a economia moçambicana, num contexto de deterioração das contas externas, redução das reservas internacionais e persistência dos impactos financeiros e reputacionais associados ao caso das dívidas ocultas. A subida da inflação, a pressão sobre a disponibilidade de divisas e o aumento das necessidades de financiamento externo reforçam os desafios de estabilidade macroeconómica enfrentados pelo País.
Dados divulgados pelo Banco de Moçambique (BdM) indicam que o défice da balança comercial se agravou para 797,6 milhões de dólares em 2025, pressionado pela queda de 32,3% nas exportações e pelo crescimento de 35,6% nas importações. A redução das vendas externas foi influenciada sobretudo pelo desempenho dos grandes projectos extractivos, enquanto o aumento das importações reflectiu a maior procura de combustíveis, maquinaria, produtos alimentares e equipamentos industriais.
O agravamento do défice comercial ocorre num cenário de deterioração mais ampla da conta corrente, que aumentou 27,6% para 3,1 mil milhões de dólares, equivalente a 13,2% do Produto Interno Bruto (PIB). A Índia manteve-se como principal destino das exportações moçambicanas, enquanto a África do Sul continuou a liderar como principal origem das importações nacionais.
Ao mesmo tempo, as Reservas Internacionais Líquidas recuaram 18% em Março, fixando-se em 3,4 mil milhões de dólares, após o Governo utilizar parte dos recursos externos para efectuar a amortização antecipada de 698,5 milhões de dólares da dívida junto do Fundo Monetário Internacional (FMI). Apesar de o Executivo considerar a decisão um sinal de responsabilidade macroeconómica, o sector privado continua a alertar para dificuldades persistentes no acesso a moeda estrangeira no sistema bancário.
A Confederação das Associações Económicas de Moçambique (CTA) considera que a escassez de divisas continua a afectar a actividade produtiva e comercial, sobretudo empresas dependentes da importação de matérias-primas e equipamentos. O sector empresarial defende maior prioridade na alocação de moeda externa para empresas produtoras e exportadoras, bem como incentivos à substituição de importações.
No plano inflacionário, dados do Instituto Nacional de Estatística mostram que a inflação mensal acelerou para 0,63% em Abril, quase o triplo da variação registada em Março. A subida dos preços foi impulsionada sobretudo pelos produtos alimentares, com destaque para couve, cebola, tomate, repolho e peixe fresco, num período ainda marcado por constrangimentos no abastecimento de combustíveis e aumento dos custos de transporte e distribuição.
Entretanto, o Tribunal de Londres recusou o recurso apresentado pela Privinvest no processo das dívidas ocultas, tornando definitiva a condenação da empresa ao pagamento de cerca de 1,9 mil milhões de dólares ao Estado moçambicano. O caso continua ligado às garantias soberanas concedidas às empresas ProÍndicus, Ematum e MAM entre 2013 e 2014, num escândalo financeiro estimado em cerca de 2,7 mil milhões de dólares e que desencadeou uma das maiores crises económicas e reputacionais da história recente do País.
A decisão judicial representa um novo avanço para Moçambique na tentativa de recuperação financeira e responsabilização internacional dos envolvidos no processo.
Texto: Felisberto Ruco

