FMI Alerta Que Escassez de Divisas “Agrava Dificuldades Das Empresas” • Diário Económico

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O Fundo Monetário Internacional (FMI) voltou a alertar que a escassez de dólares no mercado moçambicano está a agravar as dificuldades das empresas, afectando o comércio e a produção. No mais recente relatório de consulta ao abrigo do Artigo 4 relativo a 2025, a instituição assinala que “os atrasos no acesso à moeda estrangeira perturbam o comércio e a produção ao limitar a capacidade das empresas de importar matérias-primas e bens de capital”, acrescentando que bancos e empresas reportaram “dificuldades crescentes” na obtenção de divisas ao longo do ano.

No documento, o Fundo sublinha que Moçambique enfrenta uma “escassez crescente de moeda estrangeira” que “pesa sobre a actividade económica”, apesar de o metical se manter estável face ao dólar norte-americano desde 2021. Ainda assim, o prémio do mercado paralelo atingiu 14% no final de 2025 [o dólar “na rua” custa 14% a mais do que o preço que aparece nos ecrãs dos bancos comerciais].

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Segundo o relatório, “bancos e empresas comunicaram dificuldades crescentes durante 2025 na obtenção de moeda estrangeira, com o aumento dos tempos de espera”, situação que poderá reflectir “a redução das entradas relacionadas com as exportações e a ajuda externa.”

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Apesar de as reservas internacionais brutas terem alcançado 4,2 mil milhões de dólares no final de 2025, o equivalente a 6,5 meses de importações, o FMI considera que a posição externa permanece “substancialmente mais fraca do que o nível implícito pelos fundamentos de médio prazo e políticas desejáveis”. O défice da conta corrente, após donativos, fixou-se em 13,2% do Produto Interno Bruto (PIB).

O relatório indica que o “prémio do mercado paralelo para o dólar americano atingiu cerca de 14% no final de 2025, comparado com menos de 10% um ano antes”. O diferencial cambial praticado pelas casas de câmbio face aos bancos variou entre 10% e 15% no mesmo período.

A equipa técnica entende ainda que o metical continua “sobrevalorizado em termos reais”, reflectindo “uma apreciação de mais de 20% em termos efectivos reais desde meados de 2021”. A ligeira depreciação real registada em 2025 foi considerada insuficiente para restaurar a competitividade externa.

“A escassez elevada de divisas pode impedir as importações de bens essenciais como combustível, alimentos e medicamentos e, consequentemente, a actividade económica”

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O Fundo adverte igualmente que “a escassez elevada de divisas pode impedir as importações de bens essenciais como combustível, alimentos e medicamentos e, consequentemente, a actividade económica”. O crescimento fora do sector extractivo deverá manter-se “modesto, em torno de 2%”, penalizado por “incerteza fiscal, fraco crescimento do crédito e escassez de moeda estrangeira”. O crédito à economia aumentou 2,3% em 2025.

Além disso, a instituição observa que a escassez de divisas “pode induzir o uso de canais informais de importação e exportação”, fenómeno visível no “alargamento das diferenças entre as estatísticas comerciais de Moçambique e as dos países parceiros”.

Como resposta às pressões cambiais, o Banco de Moçambique aumentou as exigências de entrega de receitas de exportação de 30% para 50% em Abril de 2025, reduziu os limites de posição cambial longa dos bancos de 20% para 2% em Julho e impôs um tecto ao uso de cartões de crédito no exterior em Dezembro.

O FMI classifica estas iniciativas como “medidas de gestão de fluxos de capitais macrocríticas”, observando, contudo, que não foram implementadas como parte de um pacote mais abrangente que incluísse consolidação fiscal e maior flexibilidade cambial.

Por seu turno, as autoridades moçambicanas sustentam que “não vêem evidências convincentes de escassez de moeda estrangeira no mercado oficial” e atribuem a elevada procura a choques de confiança associados à agitação social pós-eleitoral de Outubro de 2024 e à deterioração das condições fiscais. Consideram ainda que o mercado paralelo é “insignificante” e que o diferencial cambial decorre das características próprias desse segmento.

Ainda assim, os directores executivos do FMI recomendam uma “maior flexibilidade da taxa de câmbio” para permitir que a economia “se ajuste às condições externas em mutação e apoie o crescimento”, alertando que as actuais políticas poderão “exacerbar vulnerabilidades macroeconómicas e da dívida” caso não sejam acompanhadas de reformas estruturais e consolidação orçamental credível.

Texto: Felisberto Ruco

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