Jogo Online: o Risco Social do ‘Lazer’ Digital • Diário Económico

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Os especialistas alertam: associar o jogo a sucesso fácil reduz a percepção de risco. Num cenário de vulnerabilidade económica generalizada, como o de Moçambique, há terreno fértil para diversos problemas emergirem. Já houve derrotas em apostas associadas a episódios extremos, incluindo casos de suicídio.

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O crescimento das apostas online entre jovens moçambicanos não é uma simples tendência de lazer digital. Especialistas alertam que se trata, antes, de um fenómeno social ambivalente, situado na fronteira entre entretenimento, aspiração económica e risco estrutural. Como observa o sociólogo José Bambo, estamos perante “um fenómeno que cresce mais rápido” do que aquilo que se compreende sobre ele. Se, por um lado, estas plataformas se apresentam como uma extensão natural do universo digital, acessíveis, interactivas e integradas no quotidiano tecnológico, por outro, revelam-se como um espaço onde se cruzam vulnerabilidades sociais profundas.

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A rápida adesão dos jovens a estas plataformas não é um acaso. O desemprego juvenil, a precariedade laboral e a dificuldade de mobilidade social fazem procurar alternativas. O jogo surge, assim, como uma “economia paralela de esperança”, onde pequenas apostas carregam consigo grandes expectativas, que José Bambo descreve como “a tentativa de transformar incerteza em oportunidade.”

O especialista soma a crescente penetração de smartphones, o acesso facilitado ao mobile money e a influência de redes sociais que amplificam histórias de ganhos, muitas vezes excepcionais, mas apresentadas como plausíveis. A lógica é simples: se alguém conseguiu, eu também posso conseguir. Este efeito de imitação, combinado com a ausência de literacia financeira, contribui para normalizar comportamentos que, noutras circunstâncias, seriam percebidos como de risco.

A psicologia da recompensa imediata

Do ponto de vista psicológico, as apostas online são desenhadas para captar e reter a atenção, ao operarem com base em mecanismos de recompensa imediata, muito semelhantes aos utilizados pelas redes sociais. “Em cada aposta, existe uma expectativa de recompensa que activa circuitos de satisfação no cérebro. O problema não está no jogo em si, mas na forma como este se ajusta ao perfil de uma geração habituada ao consumo instantâneo (likes, vídeos curtos, respostas imediatas)”. Estas dinâmicas encaixam-se, já que o tempo entre a acção e o resultado é mínimo, acabando por reforçar a sensação de controlo e alimentar a ilusão de previsibilidade.

No plano psicológico, emergem sentimentos de frustração, ansiedade e culpa. A repetição de perdas pode afectar a auto-estima e gerar um ciclo de stress contínuo. Em casos mais graves, podem surgir quadros depressivos

No entanto, explica Bambo, esta mesma lógica pode conduzir a padrões compulsivos em que a perda das apostas não é percebida como um fim, mas como um estímulo para continuar, na esperança de recuperar ou compensar o que se perde.

Dependência, o sinal silencioso de um problema crescente

Segundo o sociólogo, os sinais de dependência no jogo online nem sempre são imediatos, mas seguem padrões reconhecíveis. Entre os mais comuns, destacam-se:

  • Aumento progressivo do valor das apostas;
  • Dificuldade em parar, mesmo após perdas significativas;
  • Uso do jogo como forma de escape emocional;
  • Ocultação do comportamento perante familiares;
  • Perda de dinheiro para despesas essenciais.

Do ponto de vista económico, há um aumento da vulnerabilidade financeira, com impacto directo na capacidade de satisfazer necessidades básicas. Dívidas, atrasos em pagamentos e dependência de terceiros tornam-se frequentes. No plano psicológico, emergem sentimentos de frustração, ansiedade e culpa. A repetição de perdas pode afectar a auto-estima e gerar um ciclo de stress contínuo. Em casos mais graves, podem surgir quadros depressivos.

Quando o jogo deixa de ser uma escolha

A psicóloga Ilda Samuel alerta que o problema surge quando a expectativa de ganho colide com a realidade da perda. “Há pessoas que olham para os jogos de azar como a única esperança de ganhar dinheiro e, quando perdem, desenvolvem traumas profundos”. A especialista alerta para casos em que a frustração evolui para tendências suicidas. Expressões como “não aguento mais” ou “quero matar-me” devem, por isso, ser lidas como sinais de alerta e não como meros desabafos.

Ilda Samuel explica que, longe de ser assimilada como parte de um risco calculado, a perda é vivida como ruptura económica, psicológica e, em casos extremos, existencial. Dados clínicos e observações empíricas apontam ainda para uma tendência preocupante: embora as mulheres apresentem mais tentativas, são os homens que mais concretizam o suicídio, num padrão associado à menor procura de apoio psicológico e maior exposição a comportamentos de risco. Paralelamente, estudos internacionais sobre psicologia financeira ajudam a enquadrar este fenómeno numa lógica mais ampla. A literatura distingue, claramente, entre investimento e aposta. Enquanto o investimento assenta em análise, horizonte temporal e gestão de risco, a aposta é dominada pelo acaso e pela imprevisibilidade. Ainda assim, muitos utilizadores adoptam uma lógica de “capital de risco”, tratando o jogo como estratégia financeira.

O estudo intitulado “A Psicologia Financeira em Jogos de Apostas: Desmistificando o Conceito de Investimento e Alertando sobre os Riscos”, publicado em Agosto de 2025 pelo psicólogo brasileiro Ronaldo Souza, explica que a maioria dos apostadores tende a sobrestimar as suas probabilidades de ganho, ignorando que, a longo prazo, as plataformas são estruturalmente desenhadas para favorecer o operador.

Esta percepção distorcida é frequentemente agravada por publicidade que associa o jogo ao sucesso rápido e acessível, reduzindo a percepção de risco. O resultado é uma convergência perigosa: vulnerabilidade económica, fragilidade emocional e distorção cognitiva.

O papel dos operadores e do regulador

Perante este cenário, os especialistas defendem uma resposta que vá além da regulação e que toque na base social do problema. Para José Bambo, é urgente investir em literacia financeira e digital, sobretudo entre os jovens, reforçando a capacidade crítica face às promessas de lucro fácil e criando alternativas reais de inclusão económica. Já Ilda Samuel sublinha a necessidade de fortalecer o apoio psicológico e de intensificar campanhas de sensibilização que ajudem a reconhecer sinais de risco e a valorizar a vida.

No fundo, estas recomendações estão previstas: a Inspecção Geral de Jogos, enquanto órgão regulador, impõe a protecção ao jogador. É à luz deste instrumento que se pode ler, nos portais dos operadores, mensagens como: “quando decide jogar, é importante que saiba que está protegido pela Lei, desde que jogue num espaço autorizado (seja online ou de base territorial – casinos e salas de jogo)”; “aposte apenas com o dinheiro que podes gastar”; “estabeleça limites de tempo, porque é fácil perder a noção quando se está a jogar, e faça uma pausa quando o atingir”; etc. Alertas sobre os riscos não faltam, mas a sua eficácia está por medir.

TextoCelso Chambisso • Fotografia D.R

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