O Que Falta Para Haver Mais Acesso à Liderança? • Diário Económico

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Tutoria, redes de apoio entre mulheres, aprendizagem contínua e liderança assente em valores. Várias gestoras identificam os factores essenciais para aumentar a presença feminina em cargos de decisão em Moçambique.

A sociedade só tem a beneficiar com a presença de mulheres em cargos de liderança, ainda dominados pelo género masculino. O que falta para haver mais acesso ao topo das organizações? Tutoria, redes de apoio entre mulheres e uma liderança baseada em valores são factores decisivos. Gestoras com experiência sublinham que a autoconfiança, a integridade e a partilha de experiências são essenciais para que mais mulheres consigam ultrapassar barreiras estruturais e alcançar posições de decisão no mundo empresarial. Trabalhando em rede. A união faz a força.

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Explicando a sua trajectória profissional, Henriqueta Hunguana, directora da International Capital Corporation (ICC Moçambique), multinacional de consultadoria e gestão, revela que o percurso foi profundamente marcado pelo ambiente familiar. “Eu tive uma mãe que, logo depois da independência, lutou muito pela emancipação da mulher”, conta, tal como o fez durante uma masterclass integrada na terceira edição do programa Be Like a Woman, iniciativa promovida, em Março, pela EY Moçambique, em Maputo (parceria com a rede New Faces New Voices, do Graça Machel Trust).

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Para Henriqueta Hunguana, a construção de uma carreira sólida exige uma rede de apoio e equilíbrio entre as família e trabalho. “Quando chegava do escritório, brincava com as minhas filhas até à hora do jantar. Depois, quando todos iam dormir, eu voltava ao computador e trabalhava até às duas ou três da manhã”, relatou.

Equilíbrio dinâmico, sem culpa

Marica Calabrese, directora executiva da Eni Rovuma Basin, partilha uma perspectiva semelhante, sublinhando que o equilíbrio entre vida profissional e familiar não segue uma fórmula única. A chave está em manter um “equilíbrio dinâmico”. “Se me perguntarem qual é a prioridade, a família ou o trabalho, eu diria que não há uma resposta única. Há dias em que a prioridade é o trabalho e outros em que é a família”, afirmou.

A gestora defendeu que a transparência dentro da família ajuda a reduzir tensões e a criar compreensão em relação às exigências da carreira.

“Alguém já me disse que eu perco muitos contratos porque não pago por baixo da mesa. Mas eu sei que vou dormir com a cabeça tranquila”, Henriqueta Hunguana

Calabrese relatou que costuma partilhar com os filhos os desafios do seu trabalho, permitindo que compreendam melhor as suas responsabilidades profissionais. Para a dirigente, envolver a família nas decisões e desafios da carreira permite criar uma relação mais saudável entre as diferentes esferas da vida. Apesar disso, reconhece que a pressão sobre as mulheres continua a ser significativa. “Acho que uma das coisas que precisamos de trabalhar é o sentimento de culpa. Sentimo-nos culpadas pelo trabalho, pela família e por muitas outras coisas”, observou.

Ética e qualidade como bússola da liderança

Qual a importância da ética e da integridade na construção de carreiras sustentáveis? A presidente do conselho de administração do Standard Bank, Esselina Macome, considera que a ética deve funcionar como uma verdadeira bússola para quem ocupa posições de liderança. Segundo a responsável, os líderes enfrentam frequentemente decisões complexas que podem ter impacto directo na vida de outras pessoas, o que exige uma reflexão constante sobre os valores que orientam essas decisões. “Pergunto-me muitas vezes até que ponto as decisões que tomamos são eticamente correctas e como é que elas afectam as pessoas”, afirmou.

Macome defendeu que a credibilidade profissional está profundamente ligada à coerência entre discurso e prática. Na sua perspectiva, não basta afirmar determinados valores. “Se dizemos que somos pessoas de valores, então esses valores têm de aparecer nas nossas acções”, sublinhou.

A responsável acrescenta que a aprendizagem contínua é outro factor essencial para consolidar a credibilidade profissional. Para Macome, o processo de aprendizagem não deve terminar com a formação académica, devendo acompanhar todo o percurso profissional.

Integridade e autenticidade como activos profissionais

A integridade é destacada por Henriqueta Hunguana como um dos princípios fundamentais, um pilar que nunca esteve disposta a comprometer ao longo da sua carreira. A empresária recorda que o sector da consultoria, onde actua há mais de duas décadas, é altamente competitivo e dominado maioritariamente por homens, o que muitas vezes cria pressões adicionais. Apesar disso, afirma que sempre recusou participar em práticas que comprometessem os seus princípios.

“Alguém já me disse que eu perco muitos contratos porque não pago por baixo da mesa. Mas eu sei que vou dormir com a cabeça tranquila”, afirma.

Segundo explicou, a autenticidade também é um elemento central da sua forma de liderar. A responsável considera que manter a própria identidade é essencial para construir relações profissionais baseadas na confiança. Para Marica Calabrese, a credibilidade de um líder constrói-se sobretudo através do exemplo.
A gestora defendeu que as regras estabelecidas dentro de uma organização devem ser respeitadas por todos, incluindo pelos próprios líderes. “Não posso pedir aos outros que respeitem as regras se eu própria não as respeito”, afirmou.

A responsável acrescenta que o respeito pelas pessoas em todos os níveis da organização é igualmente fundamental para criar ambientes de trabalho saudáveis. Segundo explica, a liderança não deve basear-se apenas na autoridade formal, mas também na capacidade de inspirar confiança e colaboração
entre as equipas.

Aconselhamento e legado para a nova geração

Entre tantas reflexões, resta uma pergunta: qual o papel das líderes actuais na criação de oportunidades para as gerações futuras? Henriqueta Hunguana defende que a promoção da liderança feminina exige uma abordagem colectiva, baseada na colaboração e na orientação entre mulheres. “Nós temos de criar um movimento. Se forem apenas uma ou duas mulheres a lutar por mudanças, não vamos conseguir transformar a realidade”, afirma. A empresária revela ainda que uma das suas prioridades é garantir que a sua empresa continue a ser liderada por mulheres. Além disso, destacou o papel do acompanhamento e dos programas de liderança feminina na criação de novas oportunidades.

Num contexto em que a presença feminina em cargos de topo ainda é limitada em muitos sectores, as actuais líderes defenderam que a combinação entre formação, aconselhamento e integridade poderá desempenhar um papel decisivo na construção de um ambiente empresarial mais inclusivo no País.

Texto Nário Sixpene• Fotografia EY

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