Quais os Efeitos Nas Empresas e no Mercado de Trabalho? • Diário Económico

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O encerramento da Mozal está a provocar alterações na actividade empresarial, afectando empresas do Parque Industrial de Beluluane e pressionando o mercado laboral.

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A australiana South32, que detém 63,7% da Mozal, suspendeu as operações da maior indústria do País. A fundição de alumínio entrou num regime de manutenção e conservação desde Março. “A lição mais importante é que todos os grandes projectos a nível nacional devem ter um parque industrial”, afirmou Onório Manuel, presidente do conselho de administração da MozParks. Esta abordagem “permite acolher fornecedores e desenvolver actividades independentes do projecto-âncora e reforçar a resiliência económica”. Aquilo que se passa no Parque Industrial de Beluluane serve de exemplo. Cerca de 25 empresas mantinham uma relação directa com a Mozal e parte delas já iniciou processos de encerramento ou redução de actividade. São empresas que “ficarão severamente afectadas, vão fechar as suas operações e já despediram colaboradores”, referiu. Para algumas, a dependência exclusiva da Mozal limita alternativas.

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Ao mesmo tempo, decorrem contactos com empresas que procuram adaptar-se. “Estamos no processo de discussão com algumas destas 25 para ver se podem usar a propriedade que possuem e os equipamentos para outros segmentos de mercado”, disse. A transição não será imediata, mas a diversificação pode salvá-las – e mais valia estar acautelada. Apesar do impacto, o parque mantém actividade em vários sectores. “Mais de 60% das empresas não têm relação com a Mozal, são de outras actividades”, afirmou, indicando que o processo de atracção de investimento continua.

“O que estamos a fazer em vários pontos do País visa exactamente reduzir a extrema dependência de projectos-âncora”, afirmou, referindo iniciativas em curso para expansão de parques industriais. Estes espaços permitem acolher fornecedores, promover processamento local de matérias-primas e atrair novos investimentos. É preciso é que as receitas provenientes de recursos naturais sejam canalizadas “para sectores estruturantes”. Agricultura, infra-estruturas e logística e turismo são apontados como áreas prioritárias para reforçar a base económica.

Emprego afectado a vários níveis

O impacto da suspensão da actividade da Mozal estende-se ao emprego (directo e indirecto). O responsável estima que entre quatro a cinco mil trabalhadores possam ser afectados – desde quadros da empresa até colaboradores de empresas fornecedoras. Em vários casos, os despedimentos já ocorreram; noutros, estão em curso.

O responsável sublinha que o impacto não se limita à dimensão económica. “Tem uma componente social”, disse, referindo-se às consequências associadas à perda de rendimento e à redução da actividade empresarial.

“Já se nota um crescimento no número de profissionais disponíveis. Temos recebido muitos currículos de trabalhadores da Mozal”

Vicente Sitoe, SDO Moçambique

Vicente Sitoe, director executivo da SDO Moçambique, consultora em recursos humanos, refere que já se nota um crescimento no número de profissionais disponíveis. “Temos recebido muitos currículos, muitas manifestações de interesse por parte de trabalhadores da Mozal, assim como de empresas que orbitavam à volta da fundição”, afirmou. Segundo o responsável, a entrada destes profissionais altera equilíbrios. “Quando adicionamos estas pessoas, o mercado de trabalho fica saturado”, explicou. Grande parte dos candidatos possui experiência técnica, sobretudo em áreas ligadas à indústria, o que aumenta a concorrência em segmentos específicos.

Salários e desempregosob pressão

A maior oferta de mão-de-obra ocorre num contexto de criação limitada de emprego. Vicente Sitoe considera que este cenário terá reflexos nos níveis salariais. “O que vamos verificar é a consolidação de salários médios abaixo dos salários da Mozal”, afirmou, recordando que a empresa apresentava níveis remuneratórios superiores à média. “Eles eram muito competitivos em termos salariais.”

Quanto ao desemprego, o responsável apontou para um agravamento. “Moçambique já tem uma taxa de desemprego muito alta. Vai aumentar, não restam dúvidas.” Vicente Sitoe acrescentou que parte dos trabalhadores ainda não entrou activamente no mercado, e que o processo levará entre “seis meses a um ano”, ou seja, a pressão poderá intensificar-se ao longo do tempo.

Sectores com capacidade limitada de absorção

A integração destes trabalhadores noutros sectores é considerada possível, mas com limitações. Vicente Sitoe identificou o sector de petróleo e gás como uma das principais alternativas.

Outras áreas, como a energia, também apresentam potencial, mas com restrições associadas ao número de vagas disponíveis. Em muitos casos, a integração corresponderá à substituição de trabalhadores e não à criação de novos postos. “Vai ser quase uma transição. Quem não tinha emprego vai continuar sem emprego”, disse.  Segundo o responsável, o processo de encerramento poderia incluir mecanismos adicionais de apoio aos trabalhadores. “A Mozal deveria ter feito um trabalho adicional: um plano de outplacement (recolocação profissional)”, afirmou. Sitoe clarificou que este tipo de medida não é obrigatório, mas é utilizado em processos semelhantes para facilitar a reintegração. Na ausência deste mecanismo, a recolocação depende das condições do mercado e da iniciativa individual. A empresa australiana South32 prevê gastar cerca de 52,4 milhões de euros com a suspensão, incluindo despesas relacionadas com despedimentos de trabalhadores.

O director-executivo, Graham Kerr, explicou que nos últimos seis anos a empresa envolveu-se com o Governo, com a eléctrica sul-africana Eskom, que compra energia a Moçambique e a revende à fundição, e outras partes interessadas, mas não conseguiu garantir um fornecimento de energia suficiente e a preços viáveis.

TextoNário SixpeneFotografiaD.R

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