À entrada no novo ano, a economia moçambicana enfrenta um dos momentos mais delicados da sua trajectória recente. Desde as revisões orçamentais forçadas até aos riscos climáticos, passando pelas projecções externas menos optimistas, o País procura reencontrar o rumo do crescimento sustentável.
A promessa de uma retoma ancorada nos grandes projectos permanece viva, mas depende, agora, da capacidade de gestão pública, disciplina fiscal e estabilidade operacional. À medida que consultoras internacionais e o próprio Governo ajustam as suas previsões, impõe-se uma realidade: 2026 será um ano de teste à resiliência estrutural da economia
Para compreender com rigor o que o ano de 2026 pode reservar à economia moçambicana, cruzámos as principais fontes públicas e privadas — desde consultoras internacionais a notas oficiais do Governo, passando por análises independentes —, com o objectivo de construir um retrato tão realista quanto possível das dinâmicas internas e externas que moldarão a actividade económica. Neste exercício, confrontámos previsões, avaliámos riscos, identificámos consensos e divergências e procurámos interpretar o que cada indicador significa para as famílias, para as empresas e para o Estado. O resultado é um conjunto de tendências que ajuda a esclarecer o que está verdadeiramente em jogo no ano que agora começa.
A estabilidade do metical surge como o principal factor a observar. As empresas revelam preocupação com a escassez de moeda estrangeira, com custos de importação e com a volatilidade das taxas de câmbio
O que a Deloitte espera de Moçambique em 2026
A visão da Deloitte para Moçambique, em 2026, apoia-se na pesquisa exaustiva que realizou junto dos principais directores financeiros do País. O “CFO Survey Moçambique 2025”, conduzido entre Abril e Maio, recolheu percepções de gestores executivos de empresas de grande e médio porte em sectores centrais da economia (energia, banca, indústria, transportes, construção e consumo), por entender que, pela natureza do cargo, os CFO são os primeiros a sentirem riscos, oportunidades e rupturas no ambiente económico.
Os resultados mostram um país a entrar em 2026 com um equilíbrio frágil entre sinais de retoma e expectativas de expansão moderada. Há também um conjunto de riscos que as empresas consideram demasiado relevantes para serem ignorados. O sentimento dominante é de optimismo, mas condicionado.
Um ano promissor, mas de incertezas persistentes
A Deloitte destaca que, embora cerca de metade dos CFO esteja optimista em relação ao desempenho das suas empresas, esta percepção é cautelosa. A expectativa é de crescimento económico em torno de 3,5% para 2026, sustentado, sobretudo, pelo avanço dos megaprojectos, nomeadamente no gás natural e nas minas, e pela recuperação gradual da procura interna. Contudo, verifica-se um paradoxo que marca o comportamento empresarial em 2026: 84% dos decisores financeiros percebem os níveis de incerteza como elevados e 79% acreditam que este não será ano para assumir grandes riscos. Mesmo os sectores mais confiantes ajustam estratégias para proteger margens, reforçar liquidez e mitigar volatilidades externas. Eis as quatro grandes variáveis que vão caracterizar o ano:
Moçambique possui uma das maiores dívidas do mundo em percentagem do PIB (está no ‘top’ 20 mundial), com o custo a pesar mais de 7% do PIB. Este fardo limita a capacidade de acção do Estado
1. Gestão da incerteza cambial
Entre todos os sinais captados pela Deloitte, nenhum pesa tanto quanto a questão cambial. A estabilidade do metical surge como o principal factor a observar. As empresas revelam preocupação com a escassez de moeda estrangeira, com custos de importação e com a volatilidade das taxas de câmbio. O impacto é transversal: afecta tudo, desde a compra de matérias-primas até à capacidade de financiar projectos de investimento de médio e grande porte.
A preferência declarada pelos CFO por financiamento interno e por capital próprio (em detrimento de dívida bancária e instrumentos indexados ao dólar) confirma que 2026 será um ano de desalavancagem e prudência financeira. Se a pressão cambial aumentar, no entanto, os projectos dependentes de inputs importados poderão ser adiados, reduzindo o potencial de crescimento no curto prazo.
2. Riscos geopolíticos
O relatório da Deloitte mostra que, em 2026, as empresas estão mais expostas ao contexto internacional do que nos anos anteriores. As tensões geopolíticas, desde conflitos prolongados noutros continentes até disputas comerciais globais, são factores que podem alterar preços da energia, aumentar prazos de transporte marítimo e introduzir incerteza nos contratos internacionais. As cadeias de abastecimento são consideradas vulneráveis, e este será um dos pontos críticos neste ano, porque a dependência de importações continua elevada em vários sectores, o que faz com que qualquer perturbação externa tenha reflexo imediato nos custos de produção e na disponibilidade de bens essenciais à actividade económica.

3. Empresas focadas na eficiência
Em 2026, a competitividade das empresas moçambicanas tenderá a depender do grau de automatização das suas operações e da atenção dada à formação de quadros técnicos. Por isso, a grande maioria dos gestores executivos aponta a eficiência operacional como prioridade absoluta, o que inclui a reorganização de processos, contenção de despesas e adopção de tecnologias digitais que permitam aumentar produtividade. A digitalização surge como tendência incontornável, não apenas como modernização tecnológica, mas como mecanismo de sobrevivência num ambiente económico que exigirá mais velocidade, precisão e capacidade analítica.
4. Um ano de investimento selectivo
A Deloitte sublinha que, embora a maioria das empresas planeie manter ou aumentar o investimento em activos, este crescimento será selectivo e altamente calculado. O que se prevê para 2026 não é uma onda expansiva, mas sim investimentos em áreas consideradas críticas para o negócio, como tecnologia, eficiência energética, manutenção de activos estratégicos e projectos que garantam retorno rápido.

A aversão ao risco limitará iniciativas ambiciosas que exigem financiamento externo significativo, sobretudo em sectores com elevada exposição cambial. Mas nos segmentos ligados ao gás, mineração e energia, onde os retornos são maiores e os contratos são mais robustos, o investimento deverá manter-se firme.
Quando as previsões divergem
A análise da Deloitte para 2026 ganha profundidade quando confrontada com duas outras leituras independentes: a interpretação de Fáusio Mussá, economista-chefe do Standard Bank, e a projecção da Oxford Economics, ambas baseadas em dados de actividade económica real ao longo de 2024-2025. Se a Deloitte olha para 2026 com um optimismo condicionado por riscos conhecidos, Mussá e a consultora britânica sublinham fragilidades estruturais que podem limitar significativamente o ritmo de recuperação no novo ano.
Crescimento, o ponto de maior divergência
Ao contrário da Deloitte, que identifica 2026 como um ano de maior investimento selectivo e potencial retoma (embora condicionada por riscos cambiais e geopolíticos), Fáusio Mussá prevê um crescimento algumas décimas mais fraco, na ordem dos 3,1% e muito próximo do actual ritmo populacional.

Segundo Mussá, 2026 não será ainda o ano em que os benefícios multiplicadores do gás natural liquefeito (GNL) se farão sentir na economia real. Entende que os projectos continuam na fase de construção e as ligações ao tecido produtivo são limitadas. Este ponto contrasta com a leitura da Deloitte, que vê nos sectores extractivo e energético alguns dos motores de investimento mais estáveis para 2026.
A Oxford Economics é ainda mais conservadora. Considera que, pelo facto de a economia ter entrado em recessão, no final de 2024, e ter enfrentado contracções durante grande parte de 2025, a recuperação em 2026 será “frágil e descontínua”, e, sobretudo, dependente da estabilização da política interna. A consultora argumenta que os “breves períodos de expansão” do sector privado têm sido anulados por contracções sucessivas, sugerindo que 2026 começará ainda com um sector privado debilitado.
Liquidez cambial: um consenso difícil de ignorar
A Deloitte identifica a escassez de moeda estrangeira e a volatilidade cambial como o maior risco para 2026. Mussá reforça que a pressão sobre o mercado cambial está a limitar directamente o crédito à economia, que tem demonstrado falta de dinamismo após as eleições, e a Oxford Economics sublinha que os problemas de liquidez cambial continuarão a pesar sobre a actividade empresarial.

Este alinhamento é importante: independentemente das diferenças no cenário macro — optimista prudente (Deloitte), cauteloso (Mussá) ou francamente adverso (Oxford Economics) —, nenhuma instituição prevê um 2026 estável se o mercado cambial não for resolvido.
As condições-chave da EY para um 2026 de retoma segura
Ao responder ao questionário da E&M, a Ernst & Young (EY) evitou apresentar meras projecções, preferindo lançar o olhar sobre aquilo que considera serem os pontos críticos que podem conduzir a economia moçambicana a bom porto em 2026. A consultora sublinha que, mais do que números, o País precisa de avançar em frentes estratégicas cuja evolução poderá determinar a velocidade e a qualidade da retoma. E são cinco os eixos que, na leitura da EY, merecem atenção redobrada:
1. Viabilidade financeira de empresas estratégicas
O ano de 2025 foi pautado por múltiplas notícias de empresas de diferentes sectores a enfrentarem dificuldades financeiras significativas, a maioria dentro da esfera da participação do Estado, como a Tmcel e a Linhas Aéreas de Moçambique — e todas em sectores críticos para a economia nacional. A comunidade internacional tem estado atenta a estes desenvolvimentos que pesam na percepção do País enquanto destino para investimento estrangeiro. Assim, em 2026, o Estado deverá responder a estes temas e encontrar soluções que sejam benéficas para Moçambique, e que, acima de tudo, fomentem uma percepção positiva do País para o investidor internacional. Por seu lado, o sector privado deve estar à altura do desafio, investindo e procurando soluções para estes sectores.
2. Fomentar o crescimento de um tecido empresarial médio
Moçambique tem conseguido dinamizar alguns projectos de larga escala, permitindo um posicionamento positivo para captar Investimento Directo Estrangeiro (IDE) ao longo dos últimos anos, mas sem um impacto significativo na criação de emprego e spillover (alastramento) para a economia nacional. A criação de emprego, a capacitação de empresas e os efeitos multiplicadores passam pelo crescimento de uma massa crítica de empresários de tamanho médio que invistam e cresçam em sectores como a agro-indústria, pequena indústria e serviços.

O sector privado moçambicano é, portanto, crítico para esta mudança, aponta a E&Y, podendo entrar em parceria com investidores estrangeiros de média dimensão. O Estado, por seu lado, pode aproveitar 2026 para apoiar empresários nacionais a ganharem escala e a criarem condições para atrair e reter quadros internacionais.
3. Acelerar projectos de gás e efeitos no ecossistema empresarial
O final de 2025 já sugeria a possibilidade do arranque iminente das operações de construção do recinto industrial de captação e processamento de gás da Área 1. Além da arrecadação fiscal, há uma oportunidade significativa para criação de cadeias de valor de apoio àquelas operações. O Estado terá um papel fundamental em priorizar a expansão de negócios para cadeias de valor adjacentes, garantindo uma maior distribuição de proveitos do sector por todos os investidores nacionais.
4. A dívida pública e o financiamento do Estado
Apesar das incertezas, 2026 também abre espaço para reinvenção: novas políticas, metas mais realistas e um sector privado que se prepara para operar num ambiente económico mais exigente
Moçambique detém uma das maiores dívidas do mundo em percentagem do PIB (está no ‘top’ 20 mundial), com o custo a pesar mais de 7% do mesmo. Este fardo limita a capacidade de acção do Estado. O novo ano pode ser uma oportunidade para implementar maior rigor fiscal e aumentar a arrecadação, assim como utilizar mecanismos de financiamento público-privados que diminuam o ónus para o Estado em infra-estruturas.
5. Modernização, digitalização e melhoria da eficiência do Estado
O Estado moçambicano tem uma oportunidade, em 2026, de digitalizar processos e de simplificar as suas interacções com o cidadão e empresários. Além de melhorar o desempenho económico, facilitando o investimento e a relação entre o cidadão e as instituições do Estado, tal permitiria aumentar benefícios para este último, reduzindo custos através da optimização de processos e libertando recursos para apostar no bem-estar social e económico.

Texto Celso Chambisso • Fotografia Istock & D.R.
