A semana económica em Moçambique foi marcada por desenvolvimentos de forte impacto: os alertas sobre riscos cambiais após o pagamento integral da dívida ao Fundo Monetário Internacional (FMI), a exportação de gás natural liquefeito (GNL) para Singapura e as perturbações operacionais no Porto de Maputo devido à escassez de combustível. Em conjunto, estes acontecimentos evidenciam uma economia sob pressões simultâneas, entre estabilidade financeira, dinamismo externo e constrangimentos logísticos internos.
O Governo liquidou cerca de 701 milhões de dólares ao FMI, no âmbito do Fundo para a Redução da Pobreza e o Crescimento (PRGT), numa operação confirmada pela própria instituição. Esta decisão tem sido interpretada por vários economistas como uma medida de gestão de risco, mas também como uma possível antecipação de pressões futuras sobre as contas públicas e o mercado cambial.
Para o economista Constantino Marrengula, a decisão insere-se num contexto particularmente sensível para a estabilidade da moeda nacional. “A taxa de câmbio do mercado oficial encontra-se apreciada e desalinhada com o mercado paralelo”, afirmou, acrescentando que o nível actual “está fixado em cerca de 63 meticais por dólar exactamente para proteger as contas públicas.”
O mesmo especialista alertou que esta situação poderá não ser sustentável a médio prazo. “Mais dia, menos dia, a moeda terá de depreciar, o que significa que vamos precisar de mais meticais para comprar um dólar”, explicou Constantino Marrengula, sublinhando que esse ajustamento poderá ocorrer sobretudo num cenário de novo programa com o FMI.
GNL moçambicano reforça posição no mercado energético asiático
No mercado internacional, Singapura recebeu um carregamento de gás natural liquefeito (GNL) proveniente do projecto Coral Sul, localizado ao largo da costa de Moçambique. A operação ocorreu num contexto de elevada instabilidade nos mercados energéticos globais, influenciados por tensões geopolíticas no Médio Oriente.
Segundo dados de rastreamento marítimo, o carregamento foi entregue a 19 de Abril e faz parte de uma estratégia de diversificação de fornecimento por parte da empresa estatal singapurense responsável pela importação de gás. Moçambique assume, assim, um papel crescente enquanto fornecedor energético num contexto de reforço da segurança energética internacional.
Escassez de combustível condiciona operações no Porto de Maputo
No plano interno, o Porto de Maputo enfrenta constrangimentos operacionais devido à escassez de combustível, situação que já está a provocar atrasos na movimentação de cargas e na logística de camiões. A Sociedade de Desenvolvimento do Porto de Maputo (MPDC) confirma que o problema está a afectar directamente o ritmo das operações portuárias.
O presidente do Conselho de Administração da MPDC, Osório Lucas, reconheceu o impacto da situação no funcionamento diário do porto. “Apesar do impacto ainda ser gradual, já começamos a sentir atrasos operacionais”, afirmou, explicando que o processo de descarga depende de um fluxo contínuo de transporte terrestre.
O responsável acrescentou ainda que a escassez de combustível pode agravar os custos logísticos, uma vez que o prolongamento da permanência dos navios no porto implica encargos adicionais significativos. Em alguns casos, os custos diários de operação marítima podem atingir entre 15 mil e 25 mil dólares, pressionando toda a cadeia logística nacional.
Texto: Florença Nhabinde

