O futuro Banco de Desenvolvimento de Moçambique deverá actuar de forma complementar à banca comercial, concentrando-se no financiamento de sectores e projectos que enfrentam dificuldades de acesso a crédito de longo prazo, defendeu esta quarta-feira (17), em Maputo, Carlos Braga, director da Fundação Dom Cabral (FDC) e professor universitario.
A posição foi apresentada durante um debate promovido pelo Moza Banco e pela Fundação Dom Cabral sobre os desafios e oportunidades do financiamento ao crescimento económico em Moçambique, num contexto internacional marcado por crescente incerteza económica e geopolítica.
Segundo Carlos Braga, o mundo atravessa uma nova fase caracterizada por tensões geopolíticas, mudanças nos centros de poder económico, avanços tecnológicos acelerados e fragilidades no sistema multilateral de comércio. “Mais do que nunca, tensões geopolíticas estão a influenciar economias e empresas. Temos de tomar consciência desta nova era”, afirmou.
O especialista referiu que a crescente incerteza internacional reforça a importância dos bancos de desenvolvimento, particularmente na mobilização de financiamento de longo prazo para sectores considerados estratégicos. “Bancos de desenvolvimento podem ter um papel muito importante neste contexto, particularmente oferecendo financiamento de longo prazo”, declarou.
Braga recordou que instituições desta natureza desempenham tradicionalmente uma função anticíclica, continuando a financiar a economia em períodos de desaceleração, ao contrário do comportamento habitual da banca comercial, que tende a restringir o crédito em momentos de maior risco. O académico destacou que a expectativa de crescimento da economia mundial para 2026 permanece reduzida, apontando para um cenário desafiante para os países em desenvolvimento, incluindo Moçambique. “Não há dúvida de que será um ano difícil”, advertiu.
Ao abordar a criação do Banco de Desenvolvimento de Moçambique, o especialista considerou que a iniciativa representa um “passo importante” para reforçar a capacidade de financiamento da economia nacional, sobretudo em áreas como infra-estruturas, energia e apoio às pequenas e médias empresas. “O Governo argumenta que as instituições de crédito vigentes focam-se no curto prazo e em operações de baixo risco, sendo insuficientes para financiar infra-estruturas e energia”, observou.
Contudo, alertou que o sucesso da futura instituição dependerá da definição de um mandato claro e de uma actuação complementar ao sistema financeiro existente. “É importante identificar as falhas de mercado e definir mandatos precisos com o objectivo de complementar, ao invés de competir, com o sector privado”, afirmou.
Carlos Braga sublinhou igualmente que os bancos de desenvolvimento bem-sucedidos devem privilegiar a sustentabilidade financeira, a transparência e uma governação corporativa robusta. “O grande desafio é evitar a tentação de escolher vencedores. Muitas vezes, por influência política, acabam por ser escolhidos perdedores”, alertou.
“Bancos de desenvolvimento podem ter um papel muito importante neste contexto, particularmente oferecendo financiamento de longo prazo.”
Carlos Braga – director da Fundação Dom Cabral (FDC)
Entre as recomendações deixadas para o futuro Banco de Desenvolvimento de Moçambique figuram a manutenção de níveis adequados de capitalização, a disponibilização de financiamento de longo prazo, o apoio às pequenas e médias empresas e a adopção de mecanismos rigorosos de controlo interno e gestão de risco. O especialista defendeu ainda que “eventuais subsídios sejam transparentes e devidamente reflectidos no Orçamento do Estado, de forma a evitar distorções na concessão de crédito e garantir a sustentabilidade da instituição”.
Carlos Braga alertou ainda que as “previsões apontam para um crescimento da economia mundial em torno de 2,5% em 2026, reflectindo um contexto internacional marcado por tensões geopolíticas, incerteza económica e volatilidade dos mercados”. Segundo o especialista, este ambiente torna ainda mais relevante o papel dos bancos de desenvolvimento no apoio ao investimento produtivo e ao crescimento económico.
O académico destacou igualmente que estas instituições desempenham uma função anticíclica importante, ao continuarem a disponibilizar financiamento em períodos de desaceleração económica, quando a banca comercial tende a adoptar uma postura mais conservadora na concessão de crédito. Para Carlos Braga, “o futuro Banco de Desenvolvimento de Moçambique deverá iniciar actividade com um capital social estimado em cerca de 500 milhões de dólares, considerando que a nova instituição poderá contribuir para suprir limitações de financiamento em sectores como infra-estruturas, energia e pequenas e médias empresas”.
Moderado por Henrique Cossa, presidente do Conselho de Administração do Moza Banco, o painel reuniu Manuel Soares, presidente da Comissão Executiva do banco, João Macaringue, coordenador técnico do Banco de Desenvolvimento de Moçambique, Omar Mithá, presidente do Conselho de Administração da Agência Nacional de Investimento, e Olamide Harrison, representante residente do FMI em Moçambique. Os participantes debateram os desafios do financiamento ao crescimento económico e defenderam mecanismos capazes de reforçar o investimento produtivo, a produtividade e a competitividade empresarial.
Fundada em 1976, no Brasil, a Fundação Dom Cabral (FDC) é uma das principais escolas de negócios da América Latina, dedicada à formação de executivos, liderança empresarial, governação corporativa e desenvolvimento organizacional. A instituição mantém parcerias internacionais e desenvolve programas de capacitação para empresas e instituições públicas em vários países.
Texto: Felisberto Ruco
